O Psicólogo Responde: como lidar com a passagem do tempo e a inevitabilidade de as pessoas à nossa volta começarem a desaparecer?
O Psicólogo Responde: como lidar com a passagem do tempo e a inevitabilidade de as pessoas à nossa volta começarem a desaparecer?
O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt
A passagem do tempo é inevitável, o crescimento imperativo e com ele as pessoas à nossa volta começam a desaparecer. Este é o mote para uma reflexão profunda sobre acontecimentos pelos quais já passamos, ou indubitavelmente iremos passar. A perda de pessoas significativas é das experiências com maior dificuldade adaptativa. Esta experiência universal, embora natural, traz consigo dor, medo e muitas vezes um profundo sentimento de vazio. A consciência da mortalidade não é igual para todos. As atitudes perante a morte variam entre a aceitação neutral, aceitação como escape, aceitação como aproximação, o medo e o evitamento. Estando os diferentes tipos de aceitação associados a atitudes mais positivas perante a morte, e paralelamente o medo e o evitamento relacionados com atitudes mais negativas. Esta diversidade ajuda a compreender o motivo pelo qual algumas pessoas lidam com a morte de forma mais serena e/ou pacificada, enquanto outras experimentam maior dor e ansiedade.
A Psicologia explica através de diversos modelos o processo de luto. Este processo pode ser descrito em cinco etapas, que vão desde a negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Por outro lado, o modelo de tarefas do luto de Worden descreve o processo de luto de uma forma mais ativa, que envolve aceitar a perda, acolher e elaborar as emoções dolorosas que ela desperta, adaptar-se à nova realidade marcada pela ausência e, por fim, manter os vínculos contínuos. Outros modelos sugerem um equilíbrio saudável entre aceitar a dor, reorganizar a vida e ressignificar a experiência, encontrando nela um novo sentido para a vida.
Porém, todas estas abordagens vêm reforçar que o luto não é um processo linear. O sofrimento é individual e vivenciado de várias formas atendendo a características de personalidade, relações afetivas e relações de suporte. A forma como enfrentamos a morte e os mecanismos de coping são também influenciados pela forma como avaliamos a própria vida. A satisfação com a vida é avaliada a partir da perceção de que é boa, está alinhada com os nossos objetivos e é, de modo geral, satisfatória. Uma maior satisfação com a vida tende a funcionar como fator de proteção. Não elimina a dor da perda, mas oferece recursos internos para lidar com ela.
Quando o luto se torna complicado ou prolongado
A maioria das pessoas consegue atravessar o luto com dor, mas também com crescimento. No entanto, em alguns casos, o processo pode tornar-se patológico, designado como luto complicado ou prolongado, reconhecido no DSM-5-TR, como diagnóstico clínico. Quando os sintomas estão presentes há pelo menos 12 meses (idade adulta) ou 6 meses (crianças ou adolescentes) e o sofrimento é significativo e causador de prejuízo no funcionamento social, profissional, familiar ou em outras áreas importantes da vida. Nestes casos, procurar ajuda psicológica é fundamental.
O que podemos fazer?
À luz de todas estas perspetivas, emergem algumas orientações práticas:
Aceitar a finitude: reconhecer a inevitabilidade do tempo diminui a ansiedade de evitamento.
Acolher a dor: o luto é um processo também emocional, onde as emoções devem ser acolhidas, sem culpas. O sofrimento é individual. Permitir-se chorar, partilhar a dor, e sentir-se vulnerável, é humano.
Viver o presente: práticas de gratidão e atenção plena ajudam a ancorar-nos no agora.
Manter vínculos: cultivar memórias e rituais preserva a ligação com quem partiu.
Reconstruir sentido: transformar a dor em legado ou missão permite dar continuidade à história de vida.
Procurar apoio: redes de suporte, grupos de apoio e psicoterapia são fundamentais. A partilha de experiências, ser escutado, fará a diferença.
Perceber que não está sozinho. A forma como lidamos com o tempo, a morte e a perda depende de múltiplos fatores, desde atitudes pessoais perante a finitude até ao grau de satisfação com a vida que construímos. As teorias do luto mostram que este é um processo dinâmico que contempla dor, mas também possibilidade de reconstrução e sentido.
Publicado originalmente em https://cnnportugal.iol.pt/o-psicologo-responde/saude-mental/cristina-nascimento-o-psicologo-responde-como-lidar-com-a-passagem-do-tempo-e-a-inevitabilidade-de-as-pessoas-a-nossa-volta-comecarem-a-desaparecer/20250914/68c44783d34ee0c2fed00436
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