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Na luta pela longevidade, a solidão mata antes da hora

Livro que está sendo lançado este mês nos Estados Unidos faz uma defesa enfática das conexões sociais como instrumento para idosos terem uma vida longa e saudável

Já faz algum tempo que a Organização Mundial da Saúde (OMS) inclui os relacionamentos entre as boas práticas para uma vida longa e saudável, ao lado de alimentação, atividade física, não fumar e consumo moderado de álcool.

Para a OMS, relações sociais fortes e saudáveis são um dos maiores preditores de bem-estar mental e físico, além de proteger contra solidão, depressão e diversas doenças crônicas. Agora, um livro que está sendo publicado este mês nos Estados Unidos vai além e junta provas ao redor do mundo de que essa é uma verdade que devemos levar a sério.

Para escrever Healthy to 100 - How strong ties lead to long lives (Saudável até os 100 - Como laços sociais fortes levam a vidas longas), o americano Ken Stern, 62, especialista em longevidade e envelhecimento, visitou comunidades longevas no Japão, Coreia do Sul, Espanha, Itália e Cingapura, além de avaliar dezenas de pesquisas, e concluiu que a diferença delas são as conexões sociais.

Pode ser por meio do trabalho, de aulas de dança, de esportes coletivos, não importa, o que vale é não ficar em casa esperando a morte chegar.

Já faz um tempo que acompanho Stern pela newsletter Three Not-So-Bad Things About Aging and Longevity, do Longevity Project ligado ao Stanford Center on Longevity, que traz notícias rápidas e bem-humoradas sobre envelhecimento.

Em entrevista por e-mail, ele diz não ter uma meta particular de viver até os 100. “Na verdade, 100 é um número bastante arbitrário, não muito diferente de 99 para 98”, diz ele, que mora em Washington, capital dos Estados Unidos, com a esposa, Beth, e o filho, Nate.

Seu objetivo é “viver os anos que tenho com boa saúde, de forma ativa, com propósito e de uma maneira que me permita continuar contribuindo para minha família, meus amigos e minha comunidade”.

A seguir, os melhores trechos da entrevista:

O que significa o conceito “saudável até os 100”?

Com o aumento extraordinário na expectativa de vida, é uma aspiração que todos nós deveríamos ter. Claro, mesmo com o impressionante aumento global no número de centenários, apenas uma pequena porcentagem de nós chegará aos 100 anos, mas é uma nova e razoável referência para o que pode ser uma vida longa e saudável.

Depois de visitar Japão, Coreia do Sul, Espanha, Itália e Cingapura, que fatores comuns você encontrou nessas sociedades que promovem um envelhecimento ativo e saudável?

Eles compartilham o compromisso de garantir que a segunda metade da vida possa ser tão produtiva, significativa e conectada quanto a primeira. Também há uma crença comum de que o modelo de vida em três etapas — escola, depois trabalho até os 65, e aposentadoria até a morte — deve ser repensado diante de uma vida mais longa e saudável.

Isso reflete as capacidades físicas e sociais melhoradas dos idosos, mas também uma necessidade econômica. Todos esses países têm populações muito mais velhas e taxas de natalidade em queda, o que significa que precisam que os idosos sejam contribuintes para que o país prospere.

De que maneiras as conexões sociais — com amigos, colegas, familiares e diferentes gerações — impactam a longevidade saudável?

Uma ampla gama de pesquisas mostrou que pessoas socialmente conectadas têm menor risco de morrer em qualquer idade. Fortes conexões sociais estão altamente correlacionadas com vida mais longa, melhor saúde física e mental.

Não é só que a solidão pode desencadear estresse crônico – que danifica a saúde – mas que fortes conexões sociais levam a comportamentos mais saudáveis.

Como o enfraquecimento dos laços sociais afeta a forma como envelhecemos?

A solidão tem um efeito profundo e negativo na saúde das pessoas. Julianne Holt-Lundstad, pesquisadora da Brigham Young University, concluiu que estar sozinho tem um impacto equivalente a fumar 15 cigarros por dia, afetando tanto a saúde física quanto a cognitiva.

A solidão não apenas impacta fisiologicamente o estresse e os níveis de cortisol, mas também tem efeitos comportamentais, pois pessoas solitárias e socialmente isoladas são menos móveis, menos ativas e menos propensas a cuidar de si mesmas.

No seu livro, você discute as ideias de “capital social” e “conexões sociais”. Poderia explicar as diferenças entre eles?

Conexões sociais descrevem a qualidade e quantidade de seus relacionamentos com família, amigos, colegas de trabalho, vizinhos e outras pessoas que você conhece e pode interagir eventualmente. Capital social é o que você obtém desses relacionamentos, como informação, apoio, recursos e oportunidades.

Qual é o impacto das redes sociais no envelhecimento saudável? Podemos comparar esse fenômeno à chegada da televisão na metade do século XX?

Ótima pergunta. Não há dúvida que o aumento do uso de telefones e, antes deles, da televisão, contribuiu para a epidemia de solidão nos EUA e em outros lugares. Os americanos passam cerca de 7 horas por dia online, um número extraordinário, embora ainda inferior ao dos brasileiros. Isso se traduz diretamente em mais solidão.

Isso pode ser atribuído também ao declínio das organizações que juntavam as pessoas: igrejas, sindicatos, associações de pais e mestres, círculos de costura, entre outros. O número de pessoas nos EUA que relatam não ter amigos disparou até 800% em alguns subgrupos em apenas uma geração.

Americanos, incluindo crianças, passam cerca da metade do tempo com amigos do que há uma década. É um quadro de uma sociedade cada vez mais isolada socialmente — e doente.

Que práticas concretas você observou nesses países que melhoram a qualidade de vida na velhice?

Os países que prosperaram em termos de saúde social desenvolveram uma nova infraestrutura social que cria oportunidades para levar as pessoas para a comunidade.

No Japão, isso significa oportunidades para idosos continuarem empregados, ativos e engajados (há incentivos financeiros para empresas que contratam e mantêm trabalhadores mais velhos).

A Coreia criou um compromisso robusto com o aprendizado ao longo da vida, facilitando para os idosos se manterem engajados no processo educacional (é até um direito constitucional lá).

A Itália colocou os idosos no centro das ações de voluntariado — tudo para mantê-los ativos, engajados, com propósito e, como resultado, saudáveis.

Mas nenhum lugar fez tanto quanto Cingapura, que entre outras coisas dá incentivos financeiros para habitações que juntam gerações e investe em centros de envelhecimento pela cidade.

Como você descreveria a experiência de envelhecer nos EUA hoje, considerando que a expectativa de vida americana é cerca de seis anos menor que a de países como Japão, Cingapura e Espanha?

É difícil. Além da epidemia de solidão, os idosos americanos enfrentam o que muitos caracterizam como “o país mais idadista do mundo”. Nem sempre foi assim. Até a década de 1980, a expectativa de vida nos EUA estava no mesmo patamar que muitos países.

Alguém no Japão ou Cingapura provavelmente viverá quase uma década a mais em boa saúde do que uma pessoa comparavelmente saudável nos EUA, que estão no final da lista entre seus pares econômicos em expectativa de vida e expectativa de vida saudável.

Um problema tão grande tem muitas causas, incluindo nutrição e acesso à saúde, mas a solidão e o isolamento social estão fortemente ligados à redução da saúde física e cognitiva.

O aumento global no número de centenários é notável. O que as tendências demográficas em países como o Japão ensinam sobre a possibilidade de viver até 150 anos ou mais?

Lugares como o Japão tiveram ganhos extraordinários em longevidade humana: a expectativa de vida média de uma mulher lá é de 90 anos. Mas esses ganhos vêm principalmente da redução da morte prematura e da possibilidade de mais pessoas alcançarem os 70, 80, 90 e 100 anos.

O aumento da vida não tem vindo, pelo menos de maneira significativa, de pessoas quebrando recordes de idade. A pessoa mais velha com registro validado a viver foi Jeanne Calment, da França, que morreu em 1997 aos 122 anos, e ninguém ultrapassou os 120 anos neste século.

Então, ainda estamos longe de 150 anos, e não será algo que veremos na minha vida ou muito em breve.

Publicado originalmente em https://epocanegocios.globo.com/colunas/50-vida-e-trabalho/coluna/2025/10/na-luta-pela-longevidade-a-solidao-mata-antes-da-hora.ghtml

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