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Epigenética: o poder dos hábitos sobre o destino dos nossos genes

 

Epigenética: o poder dos hábitos sobre o destino dos nossos genes

Entenda como hábitos diários podem prevenir doenças e transformar a saúde

Genes e epigenética
Imagem: Freepik

Durante muito tempo acreditou-se que a genética determinava quase tudo em nossa saúde. Se uma pessoa tinha histórico familiar de diabetes, hipertensão ou obesidade, a conclusão parecia inevitável: era apenas questão de tempo até que a doença se manifestasse.

Hoje, graças aos avanços da ciência, sabemos que essa ideia é incompleta. A herança genética influencia, mas não define o destino. O que realmente decide se um gene será “ativado” ou “silenciado” é um campo fascinante e transformador da biologia moderna: a epigenética.

O que é epigenética

O termo “epigenética” vem do grego epi, que significa “sobre”, “acima de”. Trata-se, portanto, de um conjunto de mecanismos que regulam a atividade dos genes sem alterar a sequência do DNA.

Em outras palavras, é como se nossos genes fossem um grande livro de instruções, e a epigenética fosse o marcador que escolhe quais capítulos serão lidos e quais permanecerão fechados. E o que define essa leitura? Justamente os fatores ambientais e comportamentais: alimentação, atividade física, estresse, sono, exposição a substâncias tóxicas e até o afeto recebido ao longo da vida.

Alimentação e epigenética

alimentação, entre todos esses fatores, é uma das mais poderosas ferramentas epigenéticas. Cada refeição envia sinais bioquímicos ao organismo, influenciando diretamente a expressão gênica.

Nutrientes como folato, vitamina B12, zinco, selênio e compostos bioativos presentes em frutas, vegetais e cereais integrais atuam como verdadeiros moduladores genéticos, capazes de “ligar” genes protetores e “desligar” aqueles relacionados ao desenvolvimento de doenças crônicas.

Essa descoberta é revolucionária porque devolve ao indivíduo o protagonismo sobre a própria saúde. Se antes acreditávamos estar à mercê da genética, hoje sabemos que nossos hábitos alimentares podem reescrever a forma como nossos genes se manifestam. A boa notícia é que isso significa poder de transformação; a má notícia é que também implica responsabilidade.

Padrões alimentares

Dietas ricas em produtos ultraprocessados, açúcares e gorduras saturadas, por exemplo, podem desencadear efeitos epigenéticos negativos, estimulando inflamações e favorecendo o surgimento de doenças metabólicas. Por outro lado, padrões alimentares como a dieta mediterrânea, baseada em alimentos frescos, azeite, peixes, frutas e verduras, têm mostrado efeitos protetores sobre o DNA, reduzindo o risco de diversas enfermidades.

Ou seja, a maneira como nos alimentamos é, literalmente, capaz de “educar” nossos genes.
Mais impressionante ainda é saber que as marcas epigenéticas podem ser transmitidas entre gerações.

Estudos mostram que os hábitos alimentares de uma gestante influenciam não apenas a saúde do bebê, mas também a de seus futuros netos. Isso significa que escolhas feitas hoje — o que comemos, como nos movimentamos, o quanto dormimos — ecoam biologicamente no futuro de nossas famílias. Uma herança silenciosa, porém poderosa.

A importância da constância

A epigenética, portanto, rompe com a visão fatalista da genética e traz uma mensagem profundamente esperançosa: somos, em parte, autores do nosso destino biológico. Ainda assim, é importante compreender que ela não é uma “poção mágica”. Não se trata de mudar o DNA, mas de cuidar do ambiente em que ele se expressa.

Para que isso aconteça, é preciso cultivar constância. Não basta uma refeição saudável isolada — o corpo responde a padrões mantidos ao longo do tempo.

Nesse sentido, a alimentação deve ser vista não como restrição, mas como estratégia de bem-estar. Comer de forma equilibrada, com variedade e qualidade, é uma forma concreta de influenciar positivamente a biologia. E mais: a alimentação saudável não precisa ser cara ou complexa. Feijão, arroz, legumes, frutas e hortaliças são, há décadas, a base de uma dieta naturalmente epigenética, rica em nutrientes e pobre em aditivos químicos.

A epigenética não atua sozinha

Entretanto, a epigenética não atua sozinha. O sono adequado, o manejo do estresse, o convívio social e a prática regular de atividade física formam um conjunto de fatores que dialogam entre si e moldam a expressão dos genes. Uma vida equilibrada é, em essência, o melhor tratamento preventivo que existe — e a ciência começa a demonstrar isso em nível molecular.

A compreensão dos mecanismos epigenéticos reforça também a importância das políticas públicas voltadas à alimentação saudável. Quando um país investe em educação nutricional, combate à fome e acesso a alimentos naturais, não está apenas melhorando estatísticas imediatas: está promovendo mudanças biológicas duradouras em sua população.

Ao compreender que nossas escolhas diárias moldam a expressão dos nossos genes, a alimentação deixa de ser uma questão estética e passa a ser um ato de responsabilidade com a vida. Comer bem não é moda, é uma forma de honrar a própria biologia — e, de certa maneira, de reescrever o futuro que herdamos.

Afinal, se a genética nos dá o roteiro, a epigenética nos oferece a caneta. E cabe a nós decidir como essa história será contada.

Postado originalmente em https://www.folhavitoria.com.br/saude/epigenetica-o-poder-dos-habitos-sobre-o-destino-dos-nossos-genes/

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