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Novembro Azul: cuidar da próstata é cuidar da qualidade de vida

 

Novembro Azul: cuidar da próstata é cuidar da qualidade de vida

As queixas urinárias, demasiadas vezes tão incómodas, não devem ser assumidas como inevitáveis durante o envelhecimento. Nos últimos anos, têm surgido técnicas cirúrgicas inovadoras e tecnologicamente avançadas para tratar a chamada “hiperplasia benigna da próstata.”



Neste Novembro Azul, mês dedicado à consciencialização e prevenção das doenças da próstata, é importante falarmos sobre a “hiperplasia benigna da próstata”. Esta patologia, extremamente comum com o avançar da idade, afeta uma parte significativa da população masculina e impacta grandemente a qualidade de vida, constituindo uma das principais preocupações dos urologistas. É muitas vezes diagnosticada numa fase tardia, em que o tratamento se torna mais complexo, sendo por isso fundamental sensibilizar os homens para a importância da deteção e tratamento precoces, para otimizar os resultados e a simplicidade terapêutica.

Rui Martins tem 66 anos e é o retrato de muitos homens. Todos os dias dá um passeio de cerca de 1,5 km e é voluntário numa coletividade local. Contudo, confessa que sofre “bastante da próstata como a maioria dos homens” da sua idade e tenta "combater o problema conhecendo todas as casas de banho dos percursos” que faz habitualmente. "A urgência para urinar pode ser bastante angustiante", refere - e tem pena de não viajar mais, por não se sentir confortável.

Como cerca de 70% dos homens da sua idade, sofre de um aumento benigno das dimensões da próstata, uma glândula localizada abaixo da bexiga e que circunda a uretra, o "canal" da urina. À medida que a próstata cresce, pode apertar este canal e causar sintomas urinários por obstrução.

Muitos homens normalizam estes sintomas urinários, pensando que "é da idade". Contudo, ignorar os sinais é um erro que pode levar a complicações mais graves.

Os principais sinais de alarme são um jato urinário fraco ou interrompido, dificuldade em começar a urinar, tendo de fazer força ou esperar algum tempo, o aumento da frequência urinária – sobretudo de noite – e sentir urgência para urinar. Numa fase avançada, a hiperplasia benigna da próstata pode levar a retenção urinária, com incapacidade de urinar, bastante dolorosa, ou incontinência urinária, com perda involuntária de urina.

Embora muitos homens, como Rui Martins, consultem o urologista, pelo receio de terem cancro da próstata, é fundamental saber que a hiperplasia benigna da próstata não é cancro, nem está associada a uma maior incidência desta doença. São doenças diferentes, com abordagens distintas.

Não conseguimos prevenir o aparecimento da hiperplasia benigna da próstata, mas é possível, e desejável, prevenir a progressão da doença e as suas complicações. Por isso, assim que surgem os primeiros sintomas, deve procurar a avaliação do seu médico de família ou urologista.

Hoje, a maioria dos doentes com sintomas ligeiros ou moderados é tratada de forma muito eficaz com medidas simples – como adequar a ingestão hídrica, evitar café ou comidas picantes – ou com medicação específica.

Quando a medicação já não é suficiente para controlar os sintomas ou surgem complicações, a cirurgia é recomendada. O objetivo é remover apenas a parte aumentada da próstata – o chamado adenoma – que comprime a uretra, aliviando as queixas e melhorando o fluxo urinário. Trata-se de uma cirurgia minimamente invasiva.

Rui Martins revelou ter "bastante receio de ficar impotente", porque "um amigo que foi operado à próstata ficou". É crucial desmistificar que as cirurgias para a hiperplasia benigna da próstata não condicionam disfunção erétil. Aliás, a melhoria da qualidade do sono, do bem-estar e até da função sexual é frequentemente relatada, após o tratamento.

Nos últimos anos, têm surgido técnicas cirúrgicas inovadoras e tecnologicamente avançadas para tratar esta doença. A aquablação da próstata, feita com recurso ao sistema robótico Aquabeam, é o tratamento mais recente, inovador e eficaz.

Esta tecnologia de ponta utiliza um jato de água de alta pressão, controlado por robot e guiado com extrema precisão por imagem em tempo real, para remover o tecido prostático em excesso e tratar a obstrução. Devido a esta elevada precisão, a aquablação tem demonstrado uma capacidade notável de preservar a função sexual e a continência urinária, que são as principais preocupações dos homens.

Rui Martins, depois de compreender o seu problema e conhecer a opção de aquablação, decidiu avançar para a intervenção. “Quero voltar a viajar tranquilo”, diz, confiante.

As queixas urinárias, demasiadas vezes tão incómodas, não devem ser assumidas como inevitáveis durante o envelhecimento. O tratamento da hiperplasia benigna da próstata é um investimento na qualidade de vida e no futuro. Acabar com as interrupções do sono para urinar, ter um jato forte e recuperar a confiança para viajar são ganhos inestimáveis. Não deixe de consultar o seu médico.

Paulo Jorge Dinis
Urologista nos hospitais CUF Tejo e CUF Cascais

Publicado originalmente em https://sapo.pt/artigo/novembro-azul-cuidar-da-prostata-e-cuidar-da-qualidade-de-vida-69171ffd136cea07e072a07a

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