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Resultados indicam que viver mais ou menos tempo não depende apenas do ambiente e do estilo de vida, mas também da herança genética.

 

Mais de 50% da nossa expectativa de vida pode ser herdada dos pais, mostra estudo

Resultados indicam que viver mais ou menos tempo não depende apenas do ambiente e do estilo de vida, mas também da herança genética.

A pesquisa, divulgada na revista Science, indica que a genética explica cerca de 54% das diferenças individuais na duração da vida quando se descontam mortes causadas por fatores externos, como acidentes, violência ou doenças infecciosas.

Estudos com gêmeos são usados há décadas para investigar o peso da herança genética porque permitem comparar pessoas criadas em contextos semelhantes, mas com diferentes graus de parentesco.

Gêmeos idênticos compartilham praticamente todos os genes, enquanto os não idênticos compartilham, em média, metade deles. Se dois gêmeos idênticos vivem por períodos mais parecidos do que dois gêmeos não idênticos, esse pode ser um indicativo de uma influência genética relevante sobre a longevidade.

Durante muito tempo, porém, esse tipo de análise levou a conclusões modestas. A maioria dos estudos apontava que apenas 20% a 25% da expectativa de vida teria origem genética, e alguns trabalhos mais recentes sugeriram valores ainda menores.

Esses números reforçaram a ideia de que viver mais ou menos tempo dependeria sobretudo do ambiente e do estilo de vida. O novo estudo questiona esse entendimento e identifica uma falha central nessas análises.

 Segundo os autores, o problema está no tipo de morte incluído nos cálculos. A maior parte das pesquisas anteriores não diferenciou mortes ligadas ao envelhecimento do próprio organismo daquelas provocadas por fatores externos.

Neste primeiro grupo estão causas associadas ao desgaste biológico ao longo do tempo, como doenças cardiovasculares e câncer. No segundo entram acidentes, infecções, violência e condições ambientais adversas, que atingem as pessoas de forma mais aleatória.

Esse ponto é crucial porque muitos estudos clássicos se basearam em populações dos séculos 18 e 19, quando as mortes por causas externas eram muito mais frequentes. Ao misturar esses dois tipos de mortalidade, o efeito da genética acaba subestimado.

“Esses gêmeos viviam em uma época anterior aos antibióticos, quando até uma infecção leve podia ser fatal. O nível de mortalidade era aproximadamente dez vezes maior do que o atual”, afirma Ben Shenhar, líder do estudo, à Super.


Para investigar esse efeito, os pesquisadores analisaram grandes bancos de dados de gêmeos da Dinamarca e da Suécia e usaram modelos matemáticos para simular diferentes cenários. Esses modelos permitem estimar o que aconteceria com a expectativa de vida se as mortes externas fossem retiradas do cálculo.

Quando esse ajuste é feito, a semelhança na duração da vida entre gêmeos geneticamente iguais aumenta de forma consistente, e a contribuição da herança genética praticamente dobra.

Os resultados indicam que, ao considerar apenas mortes ligadas ao envelhecimento biológico, os genes passam a explicar cerca de 54% da variação na longevidade humana.

Esse valor é semelhante ao observado para várias outras características do corpo, como altura ou níveis de colesterol, que também resultam da interação entre fatores genéticos e ambientais.


O estudo propõe o conceito de “hereditariedade da longevidade intrínseca”, que busca medir a influência genética apenas sobre o processo biológico de envelhecer. Para isso, os autores consideram indivíduos que superaram a infância e a adolescência, usando a idade de 15 anos como referência – fase em que as mortes passam a refletir mais diretamente o funcionamento interno do organismo.

Com esse critério, a estimativa de que cerca de metade da expectativa de vida é herdada se mantém estável em diferentes períodos históricos, países e métodos de análise.

O resultado também ajuda a resolver uma contradição antiga da biologia. Em animais de laboratório, como camundongos, a genética sempre explicou uma parcela elevada da longevidade. Não fazia muito sentido que, em humanos, esse peso fosse tão menor.


Os autores ressaltam que isso não significa que o tempo de vida esteja determinado desde o nascimento. A outra metade da variação continua associada a fatores como condições de vida, alimentação, acesso à saúde, nível socioeconômico e escolhas feitas ao longo da vida, além do simples acaso.

Mas, segundo Shenhar, “ainda não está claro qual desses fatores é mais importante do que os outros”. “Desvendar a importância relativa desses diferentes fatores para a longevidade é um projeto de acompanhamento relevante que estamos considerando”, destaca.

Por enquanto, os resultados devem ser interpretados com cautela, já que a análise se baseia principalmente em dados de países do norte da Europa. Ainda assim, a consistência dos achados sugere que o papel da genética no envelhecimento humano foi subestimado por muito tempo.

As conclusões podem mudar o ponto de partida da pesquisa sobre envelhecimento, colocando os genes no centro das investigações ao lado do ambiente e das condições de vida.

Publicado orginalmente em https://super.abril.com.br/saude/mais-de-50-da-nossa-expectativa-de-vida-pode-ser-herdada-dos-pais-mostra-estudo/

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