Pular para o conteúdo principal

Cientistas repensam até que ponto podemos controlar a duração da vida



Durante décadas, acreditou-se que o estilo de vida e o ambiente eram os principais determinantes do envelhecimento. Mas essa perspectiva vem sendo reavaliada, visto que novas análises sugerem que a contribuição genética pode ter sido subestimada.

Um estudo recente publicado no periódico Science mostrou que a expectativa de vida é cerca de 50% hereditária — aproximadamente o dobro das estimativas anteriores e comparável a outros traços complexos, como altura e função cognitiva. Para os médicos, essa reinterpretação pode ajudar a contextualizar as expectativas de pacientes influenciados pela promessa de longevidade extrema por meio de “dietas e exercícios aeróbicos”.

“Podemos relaxar a obrigação de adotar todos os fatores certos do estilo de vida”, afirmou o principal coautor do estudo, o biólogo computacional Dr. Uri Alon, Ph.D., professor de biologia celular molecular no Instituto Weizmann de Ciências, em Israel.

A indústria do bem-estar costuma alardear que 80% da longevidade está sob nosso controle, mas a pesquisa Dr. Uri sugere que não é bem assim. "A especialidade de estudos em envelhecimento trabalhou durante décadas com o dogma de que a hereditariedade da expectativa de vida é de 25% ou menos", afirmou. "Isso era verdade em 1870, mas não é verdade nos tempos modernos”.

Estudos prévios com gêmeos dinamarqueses nascidos no final do século XIX estimaram a hereditariedade da expectativa de vida entre 15% e 33%, enquanto uma pesquisa de 2018, baseada em árvores genealógicas de assinantes do Ancestry e em dados genealógicos colaborativos, estimou valores entre 6% e 16%. Contudo, essas análises não consideram a mortalidade extrínseca — mortes por acidentes e infecções, segundo o Dr. Uri.

O Dr. Uri e sua equipe trabalharam com a hipótese de que, em gerações posteriores, menos atingidas por acidentes e infecções, a genética teria maior importância. Após analisar dados de gêmeos suecos nascidos no início do século XX, os autores observaram que o número de mortes extrínsecas diminuiu três vezes, enquanto a hereditariedade da expectativa de vida dobrou. A estimativa era de aproximadamente 40% para os gêmeos nascidos entre 1920 e 1935, que morreram entre 1990 e 2010, já na era da medicina moderna.

Após excluir a mortalidade extrínseca da coorte sueca e de outras duas coortes (gêmeos dinamarqueses e irmãos de centenários estadunidenses), os pesquisadores observaram que a hereditariedade foi praticamente igual em todos os grupos. Os gêmeos dinamarqueses (nascidos entre 1870 e 1880), os irmãos centenários (1873 a 1910) e os gêmeos suecos (1900 a 1935) convergiram para 50%. 

Os achados sugerem que, embora a medicina tenha avançado na prevenção de mortes “extrínsecas”, como as relacionadas a doenças infecciosas e lesões, ainda não alterou o processo fisiológico do envelhecimento herdado dos pais. “Os avanços da medicina moderna ainda não são suficientes”, pontuou o Dr. Uri.

Desvendando a diferença entre ‘intrínseco’ e ‘extrínseco’

A análise separa as causas de morte em fatores intrínsecos (fora do controle individual) e extrínsecos (parcialmente modificáveis). Os pesquisadores também controlaram a influência dos genes sobre causas extrínsecas de morte, como a tuberculose.

No entanto, diferenciar fatores “intrínsecos” de “extrínsecos” pode ser complicado, pois costumam estar interligados, explicou Dr. Michael Snyder, Ph.D., graduado em química e biologia e professor de genética na Stanford University School of Medicine, nos Estados Unidos, que não participou da pesquisa.

A probabilidade de sofrer um acidente pode ser influenciada pelos genes (comportamentos de risco têm componentes genéticos), enquanto a propensão e a exposição à violência provavelmente refletem tanto fatores genéticos quanto ambientais. As infecções também sofrem influências de ambos — fatores genéticos podem predispor a formas mais graves de covid-19.

É um artigo importante porque sugere que, se fosse possível evitar esses fatores, a genética teria um papel ainda maior, segundo o Dr. Michael. “Por outro lado, mesmo que esses fatores sejam evitados, o estilo de vida e a exposição ambiental ainda representariam 50% da expectativa de vida”.

A busca pelos ‘genes da longevidade’

As descobertas reforçam a importância da busca pelos "genes da longevidade", isto é, genes específicos que influenciam a expectativa de vida. Até o momento, essa análise apresentou poucos resultados, segundo o Dr. Michael. Em 2016, o sequenciamento completo do genoma de cerca de mil indivíduos em bel-idade — pessoas entre 80 e 105 anos, sem doenças crônicas — não identificou sinais relevantes em todo o genoma.

“Ainda não encontramos uma evidência definitiva para a longevidade”, afirmou o Dr. Michael. “Acredito que esses genes existam, mas provavelmente não atuem de forma isolada. Trata-se de uma característica complexa”.

As pessoas em bel-idade têm risco hereditário significativamente menor de doença de Alzheimer e doença coronariana. Estudos prévios também relacionaram a longevidade excepcional (geralmente definida como chegar aos 100 anos ou mais) a uma combinação de resistência e menor risco de doenças associadas à idade. Os centenários parecem se beneficiar da ação combinada de variantes genéticas, e não de um único gene.

A menopausa tardia tem sido associada a maior expectativa de vida, e um estudo de 2021 mostrou que genes envolvidos no reparo do ácido desoxirribonucleico — reconhecidos por seu papel no envelhecimento — influenciam o início da menopausa. "O momento da menopausa pode ser, atualmente, um dos melhores indicadores da velocidade de envelhecimento", destacou o Dr. Uri.

Por ora, a atenção dos pesquisadores se volta para um marco clínico previsto para setembro, quando são esperados os resultados de um ensaio clínico de fase 2 que avalia o impacto da rapamicina no envelhecimento ovariano. Esse medicamento, usado para prevenir a rejeição de órgãos transplantados, tem despertado interesse na pesquisa sobre o envelhecimento pelo potencial de aumentar a longevidade. No entanto, o campo ainda avalia possíveis efeitos adversos; resultados publicados este mês sugerem que o fármaco pode atenuar discretamente os benefícios do exercício.

São necessários mais estudos em larga escala sobre a genética do envelhecimento, apontou o Dr. Uri. "A hereditariedade não é fatalismo, mas um apelo à ação”.

Enquanto novas evidências não são disponibilizadas, o Dr. Uri recomenda foco em medidas que melhorem a qualidade de vida no presente. Para ele, isso envolve manter uma alimentação equilibrada e praticar atividade física.

Dr. Michael Snyder informou ser cofundador e consultor científico da Crosshair Therapeutics, Exposomics, Filtricine, Fodsel, iollo, InVu Health, January AI, Marble Therapeutics, Mirvie, Next Thought AI, Orange Street Ventures, Personalis, Protos Biologics, Qbio, RTHM e SensOmics. Informou ser também consultor científico da AbbraTech, Applied Cognition, Enovone, Jupiter Therapeutics, M3 Helium, Mitrix, Neuvivo, Onza, Sigil Biosciences, TranscribeGlass, WndrHLTH e Yuvan Research. Além disso, informou ser cofundador da NiMo Therapeutics ; investidor e consultor científico da R42 e da Swaza ; e investidor da Repair Biotechnologies.

Este conteúdo foi traduzido de Medscape 

Publicado originalmente em https://portugues.medscape.com/viewarticle/cientistas-repensam-ponto-podemos-controlar-2026a1000ept?form=fpf


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Esqueça a ideia de que qualidade de vida está nas capitais: ranking oficial da ONU revela que dezenas de cidades do interior concentram os maiores índices de desenvolvimento humano municipal do Brasil e superam grandes centros em educação, renda e longevidade

Moradores conferem ranking da ONU que aponta cidades do interior entre as melhores em qualidade de vida no Brasil. Levantamento do PNUD, com base no Atlas do desenvolvimento humano, aponta municípios com IDHM muito alto e redefine o mapa da qualidade de vida no Brasil Os melhores indicadores de qualidade de vida do Brasil não estão concentrados apenas nas capitais. Segundo o  Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil , divulgado pelo  Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) ,  dezenas de municípios do interior registram  IDHM acima da média nacional . O levantamento foi elaborado em parceria com o  Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)  e a  Fundação João Pinheiro , com dados consolidados oficialmente. Software para finanças A pesquisa avaliou todos os municípios brasileiros e listou as  50 cidades com maior Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) . Como funciona o IDH municipal O  IDHM  é uma adaptaç...

Com que dieta eu vou? Estudo revela as cinco capazes de ampliar a longevidade

Pesquisa robusta, com mais de 100 mil pessoas, identifica associação entre maior expectativa de vida e cinco planos alimentares Dieta mediterrânea: um dos cardápios avaliados em estudo (Foto: Louis Hansel/Unsplash/Divulgação)   Se a temporada da  dieta  é instaurada após o  Carnaval , um  novo estudo  pode ajudar a decidir a melhor opção a seguir para ganhar saúde e ampliar a  longevidade . Segundo uma análise de dados da população britânica, cinco planos alimentares se consagraram na  redução do risco de mortalidade precoce  e no  aumento da expectativa de vida. O  trabalho , conduzido por cientistas chineses e amparado no acompanhamento de mais de 100 mil pessoas registradas no UK Biobank (o banco de dados de saúde pública mantido pelo governo da Grã-Bretanha), evidenciou que os indivíduos com maior adesão aos cardápios bem avaliados apresentavam redução de 18 a 24% no risco de mortalidade por todas as causas no período contemplad...

Pesquisadores descobrem proteína que pode devolver força muscular perdida pela idadeUm novo mecanismo biológico pode transformar a saúde muscular dos idosos

Pesquisadores descobrem proteína que pode devolver força muscular perdida pela idade Um novo mecanismo biológico pode transformar a saúde muscular dos idosos Proteína ajuda a preservar força muscular na velhice. (Foto: Perfect Wave via Canva) Fala Ciência O envelhecimento costuma trazer uma queda constante da força, afetando equilíbrio, mobilidade e autonomia. Porém, novas evidências científicas indicam que esse processo pode ser mais maleável do que se imaginava.  Um estudo publicado na revista Communications Biology, conduzido por Alessandra Cecchini, identificou que a proteína tenascin-C desempenha um papel decisivo na preservação, recuperação e funcionalidade dos músculos em idades avançadas. A tenascin-C como peça essencial da regeneração muscular A tenascin-C atua diretamente na matriz extracelular, região que fornece sustentação e organização às células musculares. Essa proteína contribui para reparar microlesões, ativar mecanismos regenerativos e manter o tecido...