Esses são os 2 maiores golpes do mercado da longevidade, segundo Peter Attia; leia entrevista
Para médico autor do best-seller ‘Outlive’, é preciso desconfiar das soluções de saúde que não exigem esforço
Para especialista canadense-americano autor do best-seller Outlive, prevenir doenças que mais matam é caminho melhor do que "ideias malucas de viver para sempre. Crédito: Leo Souza/Isabel Lima/Estadão
Uma das principais autoridades sobre longevidade no mundo, o médico canadense-americano Peter Attia não é grande fã do termo que batiza a sua área de atuação. Para ele, a palavra “longevidade” foi “sequestrada” por charlatões que ganham dinheiro vendendo soluções fáceis - e sem embasamento científico - para uma vida mais longa e saudável.
Em entrevista ao Estadão durante sua passagem pelo Brasil nesta semana, o especialista, autor do best-seller Outlive: A Arte e a Ciência de Viver Mais e Melhor (Editora Intrínseca, 2023), revelou quais são, na sua visão, os maiores golpes e mitos do mercado da longevidade nos quais as pessoas deveriam parar de acreditar. Entre eles, estão terapias caras, “mas que não exigem nenhum esforço” e carecem de evidências de eficácia.
“As coisas que realmente funcionam — prestar atenção em como você dorme e come, e exercitar-se — exigem esforço. E elas tendem a ser baratas. Isso pode nos dar algumas pistas (sobre o que é golpe na ciência da longevidade)“, disse ele ao Estadão nesta sexta-feira, 7, pouco antes de participar de um painel da 25ª edição do HSM+, um dos principais eventos de gestão e liderança corporativa da América Latina, realizado em São Paulo.
Formado em Medicina na renomada Universidade de Stanford (EUA), Attia virou uma celebridade nas redes sociais, com mais de 1 milhão de seguidores no Instagram e YouTube, ao focar seu conteúdo em uma abordagem que ele batizou de Medicina 3.0.
Conforme explicou no painel em São Paulo, esse modelo se baseia em três pilares: 1) valoriza a qualidade de vida tanto quanto o número de anos vividos (healthspan x lifespan), 2) foca na prevenção de doenças crônicas em vez de apenas tratá-las, e 3) cuida do paciente de forma individualizada.
Um de seus conceitos mais difundidos e que foi explorado durante a apresentação é a necessidade de nos prepararmos para a última década das nossas vidas, que ele chama de década marginal.
“Historicamente, essa década não tem sido um grande período na vida de uma pessoa. Sua saúde, seu corpo e sua mente começam a falhar. Mas eu acho que deveríamos inverter essa lógica e nos preparar para essa década marginal treinando para ela da mesma forma que você treinaria para qualquer coisa para a qual estivesse se preparando — um torneio de tênis, uma partida de polo ou qualquer outra coisa para a qual você se prepararia fisicamente. E isso não significa que ela vai desaparecer, mas significa que não precisa ser algo tão temido", disse Attia, durante o evento.
“Infelizmente, a maioria das pessoas vai passar os seus últimos 13 a 17 anos da vida com a saúde ruim. Esse período deveria durar apenas seis meses. Acho que a maioria das pessoas preferiria viver até os 80 em muito boa saúde do que viver até os 90 e passar 15 anos com a saúde debilitada”, afirmou.
Para ele, quando o objetivo é qualidade de vida, é preciso fazer uma “engenharia reversa”: partir do resultado desejado no futuro e trabalhar de trás para frente, identificando o que precisa ser verdade em cada etapa e treinando para preencher as lacunas.
As recomendações de Attia para garantir essa “reserva de saúde” para a velhice se concentram em cinco frentes: alimentação, exercício físico, sono, saúde mental e emocional, e suplementação, quando necessário.
Para ele, esses são os principais fatores protetores contra o que ele chama dos “quatro cavaleiros” que trazem uma “morte lenta”: doenças cardiovasculares, câncer, doenças neurodegenerativas (como Alzheimer) e diabetes tipo 2 e outros problemas metabólicos. Ele destaca que a prevenção dessas doenças é muito mais acessível do que “ideias malucas sobre viver para sempre”.
Os pacientes de Attia, muitos deles executivos endinheirados americanos, pagam centenas de milhares de dólares para ter acompanhamento e aconselhamento com o especialista sobre como chegar à velhice sem grandes comprometimentos físicos nem cognitivos.
Na conversa com o Estadão, Attia disse que, embora sua recomendação para viver mais e melhor inclua começar o planejamento e treino para as últimas décadas da vida já aos 20 ou 30 anos, uma intervenção somente em idade mais avançada, como aos 60 anos, ainda é capaz de trazer benefícios.
Na entrevista, ele falou ainda sobre como adotar hábitos de vida mais saudáveis mesmo em meio ao contexto desafiador das grandes cidades brasileiras, com um ritmo de vida intenso e demandas intermináveis, e poucos espaços seguros para a prática de atividade física. Para Attia, o mais importante é começar, mesmo que seja com algo pequeno. “Às vezes, o inimigo do bom é tentar aspirar fazer algo perfeito”, disse ele.
Attia também comentou sobre a dificuldade de promover hábitos mais saudáveis em populações de países com altos níveis de pobreza e desigualdade como o Brasil. “Se você está preocupado pensando de onde vai vir sua próxima refeição, ou pensando se está seguro em casa ou no bairro, como irá se preocupar com a sua pressão arterial?”, questionou. “Enquanto essas necessidades fundamentais não forem supridas, é muito difícil pensar em prevenção de doenças crônicas.”
Leia abaixo a entrevista:
O senhor sempre enfatiza a importância da prevenção para que possamos agir sobre a saúde antes que as doenças apareçam. Como podemos falar sobre prevenção de uma forma que motive as pessoas, em vez de fazê-las se sentirem culpadas?
O senhor é crítico do que poderíamos chamar de um modelo de saúde reativo, que age apenas quando a doença já está instalada. Mas, em muitos países, especialmente os de baixa e média renda, como o Brasil, vemos que o principal desafio ainda é o acesso ao atendimento básico. Quais aspectos da sua estrutura de medicina preventiva poderiam funcionar em um contexto de sistema público de saúde com poucos recursos, como o brasileiro?
Acho que é difícil se preocupar com saúde quando segurança e outras necessidades básicas não estão sendo atendidas. A realidade é que, enquanto essas necessidades fundamentais não forem supridas, é muito difícil pensar em prevenção de doenças crônicas. Se você está preocupado pensando de onde vai vir sua próxima refeição, ou se está seguro em casa ou no bairro, como irá se preocupar com a sua pressão arterial?
Ainda falando sobre a realidede brasileira, infelizmente somos um dos países com as maiores taxas de sedentarismo no mundo. E muitas pessoas, especialmente nas grandes cidades, como São Paulo e Rio, dizem que é muito difícil se manter ativo com rotinas tão cheias, longos deslocamentos e também falta de espaços públicos seguros para a prática de atividade física. Que conselhos práticos o senhor daria para ajudar as pessoas a superarem essas barreiras e começarem uma vida mais ativa, mesmo nesse contexto?
Acho que é difícil. Novamente, tudo volta à questão da segurança. Se você não se sente confortável ao ar livre, é muito mais difícil ser ativo. É possível se exercitar em espaços fechados, mas não é necessariamente tão agradável. Isso pode significar ir à academia ou usar uma esteira, em vez de caminhar ou correr no parque.
Mas também há coisas que podem ser feitas em ambientes fechados e que são muito positivas, como musculação ou esportes de raquete, por exemplo. Então, todos nós somos ocupados, e precisamos decidir: “Posso fazer um pouquinho hoje?”.
Às vezes, eu acho que o inimigo do bom é tentar fazer algo perfeito. Se alguém que é totalmente sedentário conseguisse fazer apenas 15 a 30 minutos de atividade física por dia, já haveria uma melhora enorme na saúde dessa pessoa.
Um conceito de que o senhor fala com frequência é a importância de buscarmos maior healthspan (tempo de vida saudável) em vez de apenas maior lifespan (mais anos de vida). Mas, olhando para o mundo real, o senhor acha que esse movimento da longevidade acabou se tornando mais um símbolo de privilégio do que uma questão real de saúde pública? E como superar isso?
Sim. Acho que existem certas interpretações desse movimento — e, claro, eu só posso falar do que vejo nos Estados Unidos — que transformaram a longevidade e até a ideia de imortalidade em símbolos de excesso. Mas, na minha visão, como você mesma disse, trata-se de aumentar o tempo de vida saudável, aceitando que todos vamos morrer um dia, e tentando adiar isso ao máximo por meio da prevenção das doenças crônicas, sempre com foco na qualidade de vida. E a boa notícia é que isso é muito mais acessível do que essas ideias malucas de viver para sempre.
Falando em ideias malucas: no seu livro o senhor também menciona que nem gosta tanto da palavra “longevidade”, porque ela foi “sequestrada por charlatões”. Quais são hoje os principais mitos, golpes ou desinformações no campo da longevidade que o senhor gostaria que as pessoas parassem de acreditar?
Quanto tempo a gente tem? (risos). Temos três horas, certo?
Só os principais... (risos)
Um mito — ou melhor, uma categoria — é qualquer situação em que alguém esteja vendendo um exame que mede algo que essa própria pessoa inventou, e depois vende um suplemento para “melhorar” o resultado desse exame. Isso é um golpe. Só falta colocar o carimbo de golpe. E há muito disso acontecendo.
Também fico muito desconfiado de pessoas que oferecem soluções que não exigem esforço. As mais comuns são coisas como oxigenoterapia hiperbárica, células-tronco, peptídeos e afins, mas, na verdade, não há evidências de que essas coisas funcionem. Elas também são caras e todas têm em comum o fato de não exigirem esforço.
Já as coisas que realmente funcionam — prestar atenção em como você dorme e come, e exercitar-se — exigem esforço. E elas tendem a ser baratas. Isso pode nos dar algumas pistas (sobre o que é golpe).
O senhor costuma enfatizar a importância de planejar cedo como queremos que sejam as últimas décadas da nosa vida. Por que o senhor acha que as pessoas têm tanta dificuldade em pensar tão a longo prazo? E, para quem só começa a cuidar da saúde aos 60 anos, por exemplo, o que ainda é possível conquistar?
Quanto à última pergunta, a boa notícia é que já vi muitos exemplos de pessoas que não se cuidaram bem até os 60 anos e, por algum motivo, decidiram mudar. E, embora não seja igual a quem se cuidou a vida toda, os resultados ainda podem ser muito recompensadores.
Sobre a primeira pergunta: acho que nós, humanos, temos muita dificuldade em imaginar o futuro. Isso talvez soe um pouco filosófico, mas eu não acho que a evolução nos preparou para isso. Não era um traço importante na época em que evoluímos. Nós evoluímos para lidar com o aqui e agora: “consigo encontrar um parceiro? comida? abrigo? segurança?” Tudo isso são problemas imediatos. E só depois de resolver o problema de hoje é que pensamos no amanhã. Já o planejamento de longo prazo é uma criação moderna, não algo inato a nós. Algumas pessoas aprendem a fazer isso, mas não é natural, exige esforço.
Publicado originalmente em https://www.estadao.com.br/saude/esses-sao-os-2-maiores-golpes-do-mercado-da-longevidade-segundo-peter-attia-leia-entrevista/
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