Pular para o conteúdo principal

Estudo investiga relação entre longevidade de brasileiros supercentenários e miscigenação

 

Estudo investiga relação entre longevidade de brasileiros supercentenários e miscigenação

Pesquisa busca preencher lacuna ao analisar material genético de brasileiros com mais de cem anos. Diversidade genética pode estar associada à longevidade e ao envelhecimento saudável

Texto: Amanda Nascimento*

casal de idosos sentados em um quintal

No Brasil, mais de 37 mil pessoas têm cem anos ou mais – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

O que distingue quem passa dos 100 anos da maioria da população é uma das perguntas mais fascinantes da ciência. Parte da resposta, segundo um artigo publicado nesta terça-feira (6) na Genomic Psychiatry, está na diversidade genética presente na população brasileira. A hipótese é que a miscigenação seria um contribuinte para a longevidade e qualidade de vida observadas em centenários e supercentenários. 

A percepção veio a partir da coleta de dados clínicos e amostras biológicas de mais de 100 centenários, sendo 20 deles supercentenários, de diferentes origens sociais e culturais, distribuídos pelo Brasil. A equipe por trás da pesquisa integra o Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP (Genoma USP), liderado pela professora e geneticista Mayana Zatz. Juntos, eles fizeram a análise genômica e celular dos participantes da coorte, que incluiu indivíduos com alta funcionalidade e que sobreviveram à covid-19 quando ainda não havia vacina.  Os pesquisadores destacam que todos os resultados apresentados são considerados preliminares.

“O objetivo final do estudo é identificar quais são os fatores que determinam essa longevidade extrema. Sabemos que isso depende principalmente da genética e do perfil imunológico. Estamos identificando as variantes genéticas nesses centenários e estudando a sua função”, afirma Zatz em entrevista ao Jornal da USP. 

Segundo ela, a intenção é que os resultados ajudem outras pessoas a alcançarem a longevidade — mas sobretudo se mantendo saudáveis e com boa qualidade de vida. Agora, o próximo passo é investigar o perfil imunológico da amostra, com a colaboração da professora Ana Maria Caetano, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Mayana Zatz - Foto: Reprodução/Fapesp

Mayana Zatz - Foto: Reprodução/Fapesp

Os supercentenários representam uma amostra única da longevidade humana, sendo caracterizados por perfis imunológicos, genéticos e metabólicos resilientes contra o declínio associado ao envelhecimento. São essas propriedades que os autores acreditam que possam oferecer estratégias que estendam a expectativa de vida para todos. No Brasil, são mais de 37 mil pessoas com 100 anos ou mais, segundo o Censo de 2022, o que faz do País um potencial centro de pesquisa para entender a longevidade humana. Ainda assim, a maioria dos bancos de dados carece de amostras genéticas de populações miscigenadas, como a da população brasileira.

Sendo o Brasil o lugar de maior diversidade genética do mundo — resultado da mistura de diferentes povos, entre eles os europeus, os africanos e os indígenas —, os pesquisadores estão interessados em investigar essa lacuna. 

O pesquisador Mateus Vidigal - Foto: Arquivo pessoal

Mateus Vidigal - Foto: Arquivo pessoal

Como explica Mateus Vidigal, primeiro autor do artigo, “a literatura científica atual foca na população caucasiana. Alguns genes e variantes se replicam na nossa população, outros não, e novas variantes devem ser catalogadas por conta da miscigenação, que não foram vistas até então porque levavam em consideração uma população mais homogênea”.

O que também chama a atenção dos autores são as diferentes realidades desses grupos. “Comparando com a população europeia, os brasileiros são mais vulneráveis”, aponta Vidigal. “Na Europa, o idoso tem, por uma questão socioeconômica e de políticas públicas, maior acesso à medicina, o que o brasileiro tem uma grande carência, no geral. Mas, por outro lado, têm indivíduos no Brasil que passam dos 100 anos e mantêm o bem-estar mesmo sem acesso à saúde”, completa. A explicação para essa resistência, diz ele, mora na genética. 

Na visão de João Paulo Limongi França Guilherme, coautor do artigo, o estudo da população centenária miscigenada será algo extremamente valioso para o futuro, “para criar diretrizes para novas intervenções visando não só ao envelhecimento, mas ao envelhecimento com saúde”. Pesquisador no Genoma USP, ele adiciona que a equipe pretende coletar mais amostras por mais cinco anos, e que recrutam pessoas acima dos 95 anos, apesar da preferência pelos mais velhos.

Maioria dos bancos de dados carece de amostras genéticas de populações miscigenadas, como a da população brasileira –
Foto: Marcos Santos / USP Imagens

O segredo na genética dos supercentenários

O estudo constatou que supercentenários são geneticamente distintos em alguns de seus mecanismos biológicos. Por exemplo, seus linfócitos de sangue periférico mantêm atividade proteassomal — responsável pela remoção de proteínas danificadas ou desnecessárias dentro das células —, comparável à de indivíduos mais jovens. Outra observação tem relação com os mecanismos de autofagia, processo natural de reciclagem celular, que permaneceram funcionais e regulados nesses indivíduos. 

João Paulo Limongi França Guilherme - Foto: Arquivo pessoal / Lattes

João Paulo Limongi França Guilherme - Foto: Reprodução / Lattes

Além disso, João Paulo Guilherme explica que há uma grande diferença na regulação de hormônios dos supercentenários. “Hormônios sinalizam ao organismo para que ele funcione adequadamente. Nesse caso, os hormônios que deveriam cair, como os de características sexuais, parecem ser mais preservados nessa população. E isso tem reflexo direto em uma série de células que deveriam cair junto com os hormônios”.

É com base nesses resultados que os autores defendem: o envelhecimento imunológico em supercentenários não deve ser visto como um declínio, mas sim como resiliência funcional. A pesquisa mobiliza o termo para descrever a estabilidade imunológica das funções celulares. “Enquanto é normal que a maioria da população com 70 e 80 anos tenha um declínio funcional, quando as células começam a ficar mais velhas e vão perdendo suas características naturais, os supercentenários não têm”, completa.  

“As células de supercentenários parecem ser células mais jovens, mais resistentes ao envelhecimento. O declínio dessas células não acontece como o esperado” – João Paulo Guilherme, Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP

No entanto, ainda que existam pontos de convergência na amostra do estudo, os pesquisadores notam que o estilo de vida de cada um desses indivíduos diverge. “Têm centenários que são lúcidos, ativos e independentes. Diversos participantes moram sozinhos, alguns fazem atividade física”, exemplifica Mateus Vidigal. O inverso também se aplica: “tem a parcela que não tem hábitos saudáveis, são sedentários, consomem álcool, outros são tabagistas. Nem todos são lúcidos e ativos. Entretanto, passaram dos 100 anos. A gente atribui isso a um caráter genético”.

Mateus Vidigal conta que o interesse da equipe pela “genética do envelhecimento” data 2017, quando, ainda em seu projeto de pesquisa, o plano era comparar pessoas que chegaram ao centenário com qualidade de vida com as que também atingiram, mas com problemas de saúde. A covid-19 mudou os rumos da investigação, que buscou centenários infectados pela doença. “Por conta do contexto pandêmico, estudamos a resiliência por trás de uma doença tão grave nessa faixa etária. Em 2020, ninguém havia sido vacinado. Então, a gente estava estudando uma resiliência natural daquele indivíduo que passou dos 100 anos”, diz. 

Entre os participantes da pesquisa, destaca-se a freira Inah Canabarro Lucas, ou apenas irmã Inah, reconhecida pelo LongeviQuest como a pessoa mais velha do mundo de 29 de dezembro de 2024 até sua morte, em 30 de abril de 2025, aos 116 anos. O estudo também inclui um caso familiar centenário de uma mulher de 109 anos, com sobrinhas de 100, 104 e 106 anos — o que as configura como uma das famílias mais longevas registradas na história do Brasil. A irmã do meio, Laura de Oliveira, começou a nadar depois dos 70 anos e é recordista sul-americana.

O pesquisador observa que, mesmo com os resultados da pesquisa sendo preliminares, dois padrões já se destacam: mulheres vivem mais do que homens e indivíduos de menor estatura aparentam ter maiores chances de viver mais, principalmente as mulheres. 

Atualmente, o grupo está recrutando voluntários com cem anos ou mais que gostariam de fazer parte da pesquisa. Interessados podem entrar em contato pelo e-mail: dnalongevo@usp.br.

O artigo Insights from Brazilian supercentenarians está disponível on-line e pode ser acessado neste link

Mais informações: mayazatz@usp.br, com Mayana Zatz; mateusvcastro@gmail.com, com Mateus Vidigal, e jplfguilherme@hotmail.com, com João Paulo Guilherme.

* Estagiária com orientação de Tabita Said

Publicado originalmente em https://jornal.usp.br/ciencias/estudo-investiga-relacao-entre-longevidade-de-supercentenarios-brasileiros-e-miscigenacao/

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Esqueça a ideia de que qualidade de vida está nas capitais: ranking oficial da ONU revela que dezenas de cidades do interior concentram os maiores índices de desenvolvimento humano municipal do Brasil e superam grandes centros em educação, renda e longevidade

Moradores conferem ranking da ONU que aponta cidades do interior entre as melhores em qualidade de vida no Brasil. Levantamento do PNUD, com base no Atlas do desenvolvimento humano, aponta municípios com IDHM muito alto e redefine o mapa da qualidade de vida no Brasil Os melhores indicadores de qualidade de vida do Brasil não estão concentrados apenas nas capitais. Segundo o  Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil , divulgado pelo  Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) ,  dezenas de municípios do interior registram  IDHM acima da média nacional . O levantamento foi elaborado em parceria com o  Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)  e a  Fundação João Pinheiro , com dados consolidados oficialmente. Software para finanças A pesquisa avaliou todos os municípios brasileiros e listou as  50 cidades com maior Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) . Como funciona o IDH municipal O  IDHM  é uma adaptaç...

Com que dieta eu vou? Estudo revela as cinco capazes de ampliar a longevidade

Pesquisa robusta, com mais de 100 mil pessoas, identifica associação entre maior expectativa de vida e cinco planos alimentares Dieta mediterrânea: um dos cardápios avaliados em estudo (Foto: Louis Hansel/Unsplash/Divulgação)   Se a temporada da  dieta  é instaurada após o  Carnaval , um  novo estudo  pode ajudar a decidir a melhor opção a seguir para ganhar saúde e ampliar a  longevidade . Segundo uma análise de dados da população britânica, cinco planos alimentares se consagraram na  redução do risco de mortalidade precoce  e no  aumento da expectativa de vida. O  trabalho , conduzido por cientistas chineses e amparado no acompanhamento de mais de 100 mil pessoas registradas no UK Biobank (o banco de dados de saúde pública mantido pelo governo da Grã-Bretanha), evidenciou que os indivíduos com maior adesão aos cardápios bem avaliados apresentavam redução de 18 a 24% no risco de mortalidade por todas as causas no período contemplad...

Pesquisadores descobrem proteína que pode devolver força muscular perdida pela idadeUm novo mecanismo biológico pode transformar a saúde muscular dos idosos

Pesquisadores descobrem proteína que pode devolver força muscular perdida pela idade Um novo mecanismo biológico pode transformar a saúde muscular dos idosos Proteína ajuda a preservar força muscular na velhice. (Foto: Perfect Wave via Canva) Fala Ciência O envelhecimento costuma trazer uma queda constante da força, afetando equilíbrio, mobilidade e autonomia. Porém, novas evidências científicas indicam que esse processo pode ser mais maleável do que se imaginava.  Um estudo publicado na revista Communications Biology, conduzido por Alessandra Cecchini, identificou que a proteína tenascin-C desempenha um papel decisivo na preservação, recuperação e funcionalidade dos músculos em idades avançadas. A tenascin-C como peça essencial da regeneração muscular A tenascin-C atua diretamente na matriz extracelular, região que fornece sustentação e organização às células musculares. Essa proteína contribui para reparar microlesões, ativar mecanismos regenerativos e manter o tecido...