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Aos 80 anos, médico intensivista segue na ativa: “Vivo com equilíbrio”

Aos 80 anos, médico mantém rotina ativa com trabalho, exercícios e leitura e reflete sobre hábitos que ajudam a envelhecer com saúde

medico de 80 anos

Quando pensamos em alguém com 80 anos, é comum imaginar uma rotina mais tranquila, com menos trabalho e mais cuidados com a saúde. Nem sempre, porém, essa fase significa desacelerar. Para algumas pessoas, o trabalho, a atividade física e os hábitos simples continuam fazendo parte do dia a dia.

Esse é o caso do médico intensivista João Augusto de Luna, de 80 anos, que continua trabalhando cerca de 40 horas por semana em um hospital de Brasília.

Além dos plantões na UTI, ele mantém uma rotina com leitura, música e academia quase todos os dias. “Eu gosto muito de trabalhar e do trabalho. Talvez seja a coisa que eu mais goste de fazer na vida”, afirma.

Aos 18 anos, João começou a trabalhar em um banco, e depois passou no vestibular para medicina. Durante a graduação, conciliava os estudos com o trabalho.

Formado na Paraíba, mudou-se para Brasília no início da década de 1970 para fazer residência. Pouco tempo depois participou da criação da unidade de terapia intensiva do hospital onde trabalha até hoje.

“É curioso pensar que éramos apenas quatro médicos no começo. Dois já morreram e um ainda está vivo, mas bem mais velho. Eu continuo trabalhando lá até hoje”, conta.

Ele destaca que a convivência com profissionais mais jovens também faz parte do que mantém o trabalho interessante.

“Trabalhando com os jovens eu aprendo muito. Na terapia intensiva tudo muda muito rápido, a tecnologia evolui o tempo todo. Muitas vezes eu aprendo mais com eles do que consigo ensinar”, diz.

A geriatra Priscilla Mussi, coordenadora de Geriatria e do programa Cuidar+ do Hospital Santa Lúcia, explica que manter atividades profissionais e sociais ao longo da vida pode trazer benefícios importantes no envelhecimento. Segundo ela, sentir-se útil e ter um propósito no dia a dia faz diferença para a saúde mental e cognitiva.

“Pacientes que permanecem ativos e continuam trabalhando costumam chegar à velhice com mais autonomia. O trabalho pode mudar, mas manter atividades e vínculos sociais ajuda muito no envelhecimento saudável”, destaca.

Rotina ativa

Fora do hospital, a rotina é simples. João divide o tempo entre a casa, a família e atividades que ajudam a manter o corpo em movimento. Ele frequenta a academia quase todos os dias. O objetivo, segundo ele, não é estético, mas manutenção da saúde.

A prática regular de exercícios começou mais tarde do que muitos imaginam. A musculação só entrou na rotina depois dos 60 anos, quando teve um problema na coluna e recebeu orientação médica para fortalecer a musculatura. “Desde então faço atividade física com regularidade. Já tem cerca de 20 anos”, diz.

Antes disso, a atividade física aparecia de forma mais espontânea. Quando era jovem e morava perto da praia, passava boa parte do tempo jogando futebol na areia.

A alimentação também sempre seguiu uma lógica simples. “Nunca fui de exagerar e sempre mantive praticamente o mesmo peso”, diz.

Para ele, a genética também teve papel importante. O pai viveu até os 93 anos e manteve autonomia até o fim da vida. “Ele era muito lúcido. Uma semana antes de morrer estava bebendo cerveja com amigos. Era uma pessoa que gostava de viver, mas levava uma vida regrada”, relembra.

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João Augusto com familiares

O segredo é o equilíbrio

Apesar da rotina intensa de trabalho ao longo da vida, João diz que sempre tentou manter um princípio simples para guiar suas escolhas.

“Eu sempre procurei viver com equilíbrio. Nem trabalhar demais e esquecer da família, nem deixar de trabalhar porque o trabalho cansa”, diz.

Esse mesmo princípio também aparece na forma como encara a alimentação, lazer e objetivos de vida. Hoje, ele já começa a pensar na aposentadoria definitiva. Mas, a decisão, segundo ele, não tem relação com saúde ou limitação física. “Não quero parar de trabalhar por causa de doença ou incapacidade. Quero parar por decisão minha”, reitera.

O plano é se mudar para o litoral, possivelmente voltar para João Pessoa. Ainda assim, a ideia não é levar uma vida parada.

“Quero caminhar na praia, andar de bicicleta, fazer atividades. Aproveitar. O único problema é que eu gosto muito de trabalhar”, brinca.

Para o geriatra Natan Chehter, membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, manter hábitos saudáveis ao longo da vida é um dos fatores que ajudam a preservar a autonomia na velhice, especialmente quando envolvem alimentação equilibrada e prática regular de atividade física.

“A prática de atividade física pode começar em qualquer fase da vida. Mesmo quem inicia mais tarde tem ganhos importantes em força, equilíbrio e qualidade de vida”, explica.

Ao olhar para pessoas da mesma idade que enfrentam mais dificuldades de saúde, João diz que se sente privilegiado. “Eu me sinto uma pessoa abençoada por ter chegado a essa idade com saúde. Meu conselho para quem deseja envelhecer com qualidade de vida é manter o equilíbrio de tudo”, finaliza.

Publicado originalmente em https://www.metropoles.com/saude/medico-80-anos-segredo-e-equilibrio

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