Tabuleiro de xadrez • Freepik
Você já deve ter visto, em papelarias ou lojas de brinquedos, aqueles tabuleiros que têm dois lados: em um deles está o clássico quadriculado para xadrez e damas; no outro, há um jogo diferente, muitas vezes trilha ou xadrez chinês. Eu sempre associei isso a uma estratégia de venda, oferecendo dois jogos pelo preço de um, mas descobri que esse tipo de tabuleiro acompanha a humanidade há milênios, carregando um significado cultural bem maior do que o de uma estratégia de promoção meio boba.
Walter Crist, pesquisador da Universidade de Leiden, nos Países Baixos, estuda jogos de tabuleiro antigos e recentemente ganhou manchetes ao descobrir, com a ajuda de inteligência artificial, as possíveis regras de um jogo da época do Império Romano encontrado na Holanda. Suas pesquisas vão além dessas curiosidades, no entanto, e mostram, entre outras coisas, que tabuleiros com mais de cinco mil anos, remontando à Idade do Bronze, atestam a importância dos jogos como lubrificantes sociais e instrumentos de integração cultural em um mundo que se tornava progressivamente mais complexo.
O crescimento das cidades e a intensificação do comércio ampliaram as trocas entre culturas diferentes, que muitas vezes não compartilhavam sequer o idioma. Os jogos, com seu poder de criar um mundo paralelo (espaços sociais liminares, nas palavras de Crist) proporcionavam oportunidades de interação mais fácil entre as pessoas. E os tabuleiros de dois lados dão testemunho desse intercâmbio cultural ao trazer, de um lado, um jogo egípcio, por exemplo, enquanto, do outro, aparece um jogo local. Esse fenômeno pode ser identificado mesmo em regiões que não passaram por conquistas militares ou ocupações, indicando tratar-se, de fato, de uma forma de intercâmbio cultural.
É interessante que esse papel de facilitador das relações ainda seja um dos grandes benefícios desses passatempos analógicos. A multinacional Asmodee, uma das gigantes do mercado de jogos de cartas e tabuleiros, realizou uma pesquisa com cerca de oito mil pessoas nos Estados Unidos, França, Suécia e Reino Unido, mostrando que a maioria (70%) tem contato com jogos de tabuleiro; praticamente duas em cada três afirmam que eles fortalecem os laços com amigos e familiares, e 40% dizem que, durante as partidas, é mais fácil se expressar emocionalmente e se abrir para os outros do que em uma conversa comum.
Não é por acaso que um hobby tão antigo ainda seja tão relevante. E crescente: uma reportagem deste mês (março de 2026), na revista The Economist, trouxe dados da empresa Circana, especialista em levantamentos de mercado, mostrando que, em 2025, o segmento de jogos e quebra-cabeças cresceu 30%, quatro vezes mais do que o setor de brinquedos em geral.
A já citada Asmodee reportou crescimento de mais de 20% no final do ano passado, chegando a 50% em um ano se considerados os títulos de outras editoras que ela distribui. No Brasil, o mercado acompanha essa tendência, e o número de novos jogos lançados por ano cresceu 28% de 2020 a 2025.
Num momento em que precisamos, mais do que nunca, encontrar estratégias para sair das telas e buscar formas de nos conectarmos, recorrer a práticas que se mostram eficientes há mais de 5.000 anos parece uma jogada segura.
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