A força da indústria da longevidade
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| Viver bem, sem que isso se torne mais um excesso contemporâneo, talvez seja a verdadeira inovação (pucko_ns/AdobeStock/Reprodução) |
Graças à era da informação, sabemos mais sobre a alimentação e os exercícios adequados a cada etapa da vida. Mas é possível que, em breve, apenas ingerir a dose correta de proteínas e frequentar a academia pareça insuficiente. Centros de treinamento especializados em reunir tudo o que é necessário para monitorar marcadores de saúde, oferecendo serviços desenhados para melhorá-los, já são uma realidade — ao menos em Nova York, onde os clubes de bem-estar mais exclusivos custam até 100 000 dólares por ano. A busca por esticar a vida já ultrapassou os limites da iniciativa privada, tornando-se um negócio da China — literalmente. O país fez do envelhecimento saudável uma política de Estado. Não se trata apenas de aumentar a saúde e os anos produtivos da população local, mas de disputar a liderança de um nicho em expansão acelerada. O mercado captou o que a ciência diz (e eu prego) há muitos anos: o estilo de vida é determinante para a longevidade, embora a cultura popular há muito tempo explore a ideia de que os genes mandam no destino. Há trinta anos, o filme Gattaca falava de uma sociedade em que indivíduos concebidos naturalmente eram inferiores, por serem mais sujeitos a doenças.
“Viver bem, sem que isso se torne um excesso contemporâneo, é a verdadeira inovação”
Mas, fora da ficção, estudos mostram que o DNA explica apenas uma fração da longevidade. Alimentação equilibrada, sono regular, atividade física, vínculos sociais e propósito pessoal continuam sendo as variáveis mais poderosas. No entanto, aderir aos melhores protocolos não garante vida longa. Podemos e devemos manter um cotidiano equilibrado para ter saúde ao longo do tempo. Porém transformar cada detalhe do corpo em meta pode nos afastar do que mais importa. Compramos a ideia de que, se mapearmos todos os riscos, vamos viver mais. Mas vamos mesmo viver melhor?
Entre super-ricos americanos, já se fala na “síndrome da fixação por longevidade”. Pessoas que podem empregar até 120 000 dólares por semana em protocolos que controlam o corpo estão adoecendo a mente com essa obsessão. Curiosamente, se analisarmos as estatísticas, os países com mais bilionários não são necessariamente os mais longevos. Desigualdade no acesso à saúde, alimentação baseada em ultraprocessados e alta incidência de doenças crônicas mostram que a questão não é apenas de renda individual: é sobretudo fruto de contexto social. Assim, nossa antiga ambição de viver mais pode até alimentar uma indústria bilionária; mas a base para alcançá-la está em escolhas simples, repetidas todos os dias. Viver bem, sem que isso se torne mais um excesso contemporâneo, talvez seja a verdadeira inovação do nosso tempo.
Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985
Publicado originalmente em https://veja.abril.com.br/coluna/coluna-da-lucilia/mercado-do-tempo/

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