Novas terapias enfrentam custos altos e falta de acesso, ampliando a disparidade terapêutica no cenário nacional.
![]() | ||||
| A obesidade é considerada uma doença crônica e um dos maiores problemas de saúde pública no mundo. (Shutterstock/Divulgação) |
Dr. Fabiano M. Serfaty: A obesidade entrou de vez no centro de uma das discussões mais urgentes da saúde pública brasileira: nunca houve tanto avanço terapêutico, e raramente o acesso foi tão desigual. Enquanto novas medicações anti-obesidade ampliam eficácia, segurança e possibilidades de tratamento, grande parte dos pacientes continua espremida entre preços proibitivos, acesso restrito e a busca por alternativas inseguras fora dos canais formais. O problema está longe de ser estético. A obesidade é uma doença inflamatória crônica, complexa e altamente prevalente, associada a diabetes, hipertensão, insuficiência cardíaca, apneia do sono, gordura no fígado, artrose, sofrimento psíquico e maior risco de vários tipos de câncer. Ainda assim, o debate público frequentemente escorrega para o preconceito, como se milhões de brasileiros enfrentassem apenas falta de disciplina, e não uma condição médica com impacto real sobre morbidade, mortalidade e qualidade de vida.
No Brasil, a contradição é brutal. De um lado, a ciência acelera, com novas drogas, expectativa de biossimilares e possibilidade de ampliar o arsenal terapêutico. De outro, o sistema ainda oferece respostas limitadas, o custo permanece como barreira central e a definição de quem deve receber essas terapias se impõe como uma das decisões mais sensíveis da medicina e da gestão pública. Diante desse cenário, convidei o endocrinologista Dr. Paulo Lacativa para esta entrevista a fim de discutir o que realmente está em jogo quando se fala em medicamentos para obesidade no Brasil: acesso, custo, preconceito, biossimilares, critérios de indicação e responsabilidade sanitária. Por que a chegada dos novos medicamentos anti-obesidade representa uma mudança tão importante na prática clínica atual?
Dr. Paulo Lacativa: A obesidade é uma doença crônica, complexa e de alta prevalência, e os últimos anos trouxeram uma nova geração de medicamentos com apresentações diárias, semanais e orais, além de resultados cada vez mais consistentes em eficácia e segurança. Isso amplia de forma relevante a capacidade de tratamento clínico de pacientes que antes ficavam restritos a intervenções comportamentais com resposta limitada ou à cirurgia bariátrica.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Se esses tratamentos estão mais eficazes e mais seguros, por que o acesso continua tão restrito no Brasil?
Dr. Paulo Lacativa: O principal problema é que o avanço científico não foi acompanhado por uma democratização real do tratamento. Esses medicamentos continuam caros, e mesmo moléculas com patente vencida, como a liraglutida, não tiveram a queda de preço esperada com a entrada dos biossimilares, o que mantém o acesso concentrado em uma parcela pequena e mais rica da população.
Dr. Fabiano M. Serfaty: O que acontece quando o paciente não consegue acessar o tratamento ?
Dr. Paulo Lacativa: Abre-se espaço para alternativas perigosas sem controle adequado. Quando o sistema formal falha, o paciente continua doente e ainda passa a se expor a produtos piratas e portanto sem garantia de qualidade, eficácia ou segurança.
Dr. Fabiano M. Serfaty: No SUS, o paciente muitas vezes fica limitado à mudança de estilo de vida ou à cirurgia bariátrica. O que isso revela?
Dr. Paulo Lacativa: Revela um descompasso entre a dimensão clínica da obesidade e a estrutura terapêutica disponível para a maior parte da população. Hoje, no SUS, as opções citadas no artigo se concentram basicamente em modificação do estilo de vida e cirurgia bariátrica, o que é insuficiente diante da complexidade e da frequência da doença.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Ainda há quem trate obesidade como falha moral, e não como doença. Quanto isso atrapalha?
Dr. Paulo Lacativa: Atrapalha profundamente, porque desloca o debate de uma base médica para uma base moralista e simplificadora. Quando se parte da ideia de que bastaria “fechar a boca”, perde-se de vista que a obesidade é uma doença séria, com múltiplas comorbidades, complicações e impacto sobre a expectativa de vida. O entendimento errado de que os remédios servem para fins apenas estéticos ajuda a bloquear uma discussão racional sobre ampliação de acesso para a população de menor poder aquisitivo.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Como este preconceito se manifesta?
Dr. Paulo Lacativa: Este estigma se expressa em olhares, comentários maldosos, críticas destrutivas e bullying, além de favorecer a falsa noção de que a pessoa com obesidade está nessa condição por escolha ou falta de caráter.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Por que é errado tratar obesidade como uma questão apenas estética?
Dr. Paulo Lacativa: Porque a obesidade está associada a um conjunto amplo de complicações clínicas, entre elas depressão, ansiedade, insuficiência cardíaca, fadiga crônica, apneia do sono, gordura no fígado, diminuição de testosterona, aumento de estrogênio, incontinência urinária, aumento do colesterol, diabetes, hipertensão e artrose. Além de aumentar o risco de vários tipos de câncer, incluindo endométrio, esôfago, pâncreas, cólon e reto, vesícula biliar e fígado.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Dieta e exercício bastam para todos os pacientes?
Dr. Paulo Lacativa: Não. Apenas cerca de 15% das pessoas com obesidade atingem o peso-alvo apenas com dieta e exercício, o que mostra que mudança de estilo de vida é fundamental, mas nem sempre suficiente como estratégia isolada.
Dr. Fabiano M. Serfaty: O estigma tem efeito concreto no dia a dia dessas pessoas?
Dr. Paulo Lacativa: Tem, e de forma muito expressiva. Cerca de 21% das pessoas com obesidade relatam constrangimento diário, e que esse percentual aumenta conforme o peso sobe, chegando a 98,15% entre pessoas com obesidade grau 3.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Quando se fala em custo dos medicamentos, o debate costuma ficar superficial?
Dr. Paulo Lacativa: Muitas vezes, sim, porque o foco costuma parar no preço da medicação e ignorar o custo total da doença. Quando se consideram custos diretos e indiretos, como morte prematura, absenteísmo e perda de produtividade, a obesidade passa a ter peso econômico muito mais amplo para o país.
Dr. Fabiano M. Serfaty: A estimativa de impacto econômico muda a escala dessa discussão?
Dr. Paulo Lacativa: Sem dúvida. Diante do aumento da prevalência da obesidade e de seus custos diretos e indiretos, a expectativa é de que os gastos cheguem a 4,7% do PIB brasileiro em 2060.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Os biossimilares podem ser parte da solução?
Dr. Paulo Lacativa: Podem ser uma das soluções mais promissoras para ampliar acesso. Esta possibilidade ganha força com a perda da validade da patente da semaglutida em março de 2026, abrindo espaço para produção de versões biossimilares com expectativa de redução importante de custo.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Na prática, o que seria necessário para isso acontecer no Brasil?
Dr. Paulo Lacativa: Seria necessário apoio e fomento do governo para fortalecer a produção nacional, especialmente por fábricas brasileiras e laboratórios públicos como a Farmanguinhos, da Fiocruz, no Rio de Janeiro, como parte de uma estratégia de desenvolvimento nacional capaz de ajudar a reduzir preços e ampliar disponibilidade.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Biossimilar significa cópia simples?
Dr. Paulo Lacativa: Não, os biossimilares precisam ser testados para demonstrar que sua farmacocinética, isto é, absorção, distribuição e metabolismo, é equivalente à do medicamento original. Sem essa comprovação, não há base científica sólida para tratá-los como alternativas confiáveis.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Qual é o papel das universidades e centros de pesquisa nesse processo?
Dr. Paulo Lacativa: Eles são decisivos para validar cientificamente esses produtos e sustentar sua incorporação com segurança.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Um dos pontos mais sensíveis é definir quem deve ter acesso à medicação. Por quê?
Dr. Paulo Lacativa: Porque esses medicamentos têm grande potencial terapêutico, mas também podem ser usados de maneira indiscriminada, como se fossem substitutos de dieta e exercício, e não aliados. Se isso ocorrer sem critério, o impacto sobre os cofres públicos pode ser grande e a relação risco-benefício deixa de ser favorável em muitos casos.
Dr. Fabiano M. Serfaty: Onde termina a indicação médica legítima e onde começa o uso inadequado?
Dr. Paulo Lacativa: A indicação médica legítima aparece quando há obesidade estabelecida, falha de resposta a medidas de estilo de vida e presença de complicações que aumentam o benefício clínico da medicação. Já o uso inadequado aparece quando a droga passa a ser procurada apenas para perda de poucos quilos com finalidade estética, sem doença definida e sem justificativa clínica robusta, situação em que os riscos passam a pesar mais do que os benefícios.
Publicada originalmente em

Comentários
Postar um comentário