Por milênios, a longevidade média variou entre 25 e 30 anos. Em 1900 era de cerca de 47. Hoje chega à casa dos 80. É impressionante
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Quando olhamos com alguma lucidez para o mundo atual, é compreensível pensar que vivemos em tempos terríveis. A volta do fascismo, a crise climática e seu negacionismo, a ameaça da IA, a tensão de uma guerra mundial entre potências nucleares, o crescimento da violência, as redes sociais mediando tudo isso e provocando uma crise de saúde cognitiva e mental na infância, a desigualdade social e a concentração de poder nas mãos de bilionários inescrupulosos… a lista é assustadora.
Mas não podemos esquecer que os tempos já foram muito piores. Graças à ciência, estamos vivendo níveis de saúde, segurança, conforto, qualidade de vida e longevidade sem precedentes – infelizmente ainda muito mal distribuídos. Há poucos anos, as safras agrícolas eram insuficientes e a desnutrição matava milhões. Um arranhão podia evoluir para infecção generalizada e tétano. Epidemias de cólera dizimavam milhares. Diabetes, hipertensão e infarto eram frequentemente fatais. Cirurgias complicavam pela falta de higiene básica e a transfusão sanguínea era inviável. Sarampo e varíola mataram mais de 300 milhões de pessoas só no século XX, e centenas de milhares de crianças foram aleijadas pela pólio. Até nascer era perigoso, com milhares de gestantes e bebês morrendo por infecções e prematuridade.
Alguns poucos fatores explicam o enorme aumento da expectativa de vida humana ao longo dos últimos 120 anos. Durante milênios, a longevidade média variou entre 25 e 30 anos, principalmente por causa da alta mortalidade infantil. Entre Roma e a Idade Média, ela mudou pouco mais de cinco anos. Em 1900 era de cerca de 47 anos nos países mais desenvolvidos. Hoje chega à casa dos 80. É impressionante.
O fator mais importante foi o saneamento e a cloração da água. Estima-se que tenham reduzido a mortalidade infantil em mais de 70%, prevenindo doenças intestinais. A simples lavagem das mãos nos hospitais também salvou milhões de vidas.
As vacinas vêm logo a seguir. Estima-se que tenham evitado 154 milhões de mortes, incluindo 146 milhões em crianças menores de 5 anos, respondendo por cerca de 40% da queda da mortalidade infantil global.
Em terceiro lugar vêm os fertilizantes. A criação de fertilizantes nitrogenados sintéticos a partir de 1910 permitiu o enorme aumento da produção de alimentos que sustenta a população mundial.
Antibióticos também salvaram milhões, acrescentando cerca de 20 anos à expectativa de vida humana. O problema agora é seu uso excessivo, que está trazendo a ameaça das superbactérias resistentes. Se elas se disseminarem, infecções simples podem voltar a matar e cirurgias se tornarão inviáveis.
A pasteurização do leite foi fundamental para prevenir tuberculose bovina e ampliar o consumo de proteína. As transfusões sanguíneas tornaram-se seguras após 1901, quando Landsteiner descobriu os grupos sanguíneos, reduzindo mortes em traumas e cirurgias, e tratando muitas doenças hematológicas.
Outros avanços decisivos foram a refrigeração industrial e doméstica, que permitiu melhor conservação e distribuição de alimentos; a redução do tabagismo — na qual o Brasil é exemplo; a terapia de reidratação oral e os programas de incentivo à amamentação, que salvaram milhões de crianças; e tecnologias médicas como o cuidado com prematuros, a prevenção da transmissão vertical do HIV e os antirretrovirais, os mosquiteiros com inseticidas contra a malária e os avanços no tratamento das doenças cardiovasculares e do câncer, em especial a triagem e o diagnóstico precoce.
Tudo feito com ciência — muitas vezes simples, mas construída com enorme esforço individual e coletivo. É por isso que investir em ciência continua sendo uma das escolhas mais inteligentes que uma sociedade pode fazer. Em um mundo cheio de ameaças, ela ainda é uma das nossas melhores apostas para o futuro.
Publicado originalmente em https://oglobo.globo.com/blogs/daniel-becker/post/2026/03/por-que-estamos-vivos.ghtml
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