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Até 2045 será possível tornar o envelhecimento uma doença do passado

André Dourado, especialista em medicina integrativa Créditos:Divulgação

Até que ponto é possível intervir no processo de envelhecimento e reduzir o risco de doença ao longo da vida? 

Em entrevista, André Dourado, especialista em longevidade e medicina integrativa, explica os princípios que orientam o seu novo livro e defende uma abordagem centrada na prevenção, na consistência dos hábitos e na leitura individual do organismo.

Num contexto em que o envelhecimento da população coloca novos desafios à saúde pública, cresce o interesse por abordagens que procuram não apenas prolongar a vida, mas melhorar a sua qualidade. É nesse enquadramento que chega aos escaparates nacionais o livro Prevenir, Curar, Viver — O plano que protege a sua saúde ao longo da vida, assinado por André Dourado, especialista em longevidade e medicina integrativa.

A obra parte de uma ideia central: a de que o envelhecimento não é um processo totalmente imutável e pode ser influenciado por escolhas quotidianas. Com base no conhecimento científico acumulado nas últimas décadas, o autor explora os mecanismos biológicos associados ao envelhecimento, com destaque para os biomarcadores que permitem monitorizar a sua progressão, e propõe estratégias orientadas para a sua modulação.

Ao longo do livro, são abordados fatores como a alimentação, o exercício físico, o sono, o stresse e a dimensão social da saúde, enquadrados numa perspetiva que cruza medicina convencional e abordagens complementares. A proposta assenta numa lógica de intervenção progressiva e sustentada, centrada na capacidade de adaptação do organismo e na influência dos comportamentos ao longo do tempo.

Diretor de Longevidade e Medicina Integrativa das Longevity Wellness Clinics, André Dourado coordena programas clínicos focados na prevenção e na otimização da saúde ao longo da vida. A sua atividade estende-se ao ensino universitário e à prática clínica, com particular atenção à personalização das intervenções e à articulação entre diferentes áreas do conhecimento médico.

Durante os últimos 30 anos, a ciência da longevidade evoluiu muito, de forma que hoje é possível entender porque, em algumas zonas do mundo, se tende a viver mais e melhor.

O seu livro parte de uma ideia central: a de que podemos influenciar o envelhecimento e “otimizar o corpo” através de escolhas diárias. Até onde vai essa possibilidade do ponto de vista científico e onde começa a promessa?

Durante os últimos 30 anos, a ciência da longevidade evoluiu muito, de forma que hoje é possível entender porque, em algumas zonas do mundo, se tende a viver mais e melhor. Os biomarcadores do envelhecimento, propostos pelo biólogo Carlos López-Ortín, da Universidade de Oviedo, são hoje uma referência internacional na monitorização e investigação de estratégias para abrandar o envelhecimento e aumentar a esperança de vida. Centenas de estudos em diversas áreas vêm mostrando como o exercício físico, a alimentação ou a microbiota influenciam o ótimo funcionamento do corpo e o seu envelhecimento. Hoje, ultrapassar os 100 anos com saúde e vitalidade já não é apenas uma questão de sorte, mas cada vez mais o resultado de boas escolhas ao longo da vida.

O conceito de healthspan (viver mais anos com qualidade) é transversal ao livro. O que é que ainda estamos a fazer mal enquanto sociedade nesse domínio?

Há muito a melhorar como sociedade e o livro abrange todos os fatores principais. Resumidamente, podemos falar do impacto da diminuição da natalidade e do enfraquecimento das redes familiares na longevidade. Não ter filhos diminui a esperança de vida. O stresse crónico, a falta de exercício físico, especialmente ao ar livre, e a ausência de contacto regular com a natureza têm impacto direto na saúde e no envelhecimento do cérebro. O nosso cérebro precisa muito do contacto com a natureza e do trabalho muscular. Sem eles, degenera. Comer bem, dormir bem, viver em stresse moderado e ter tempo para fazer exercício físico todos os dias ou ir às montanhas no fim de semana é hoje um privilégio que não está ao alcance de todos, mas que protege a saúde, aumenta a produtividade e promove uma maior esperança de vida.

O stresse crónico, a falta de exercício físico, especialmente ao ar livre, e a ausência de contacto regular com a natureza têm impacto direto na saúde e no envelhecimento do cérebro.

No seu livro também acompanhamos a ideia de “reprogramar o organismo”. O que significa esta reprogramação? Estamos a falar de reversão mensurável do envelhecimento ou de mitigação de riscos?

Podemos reprogramar os nossos genes durante os primeiros 1000 dias de vida. Neste período, podemos diminuir ou aumentar a expressão de determinados genes. É o período mais importante em que programamos os nossos filhos para a saúde física e mental. Este é o período em que podemos falar de programação epigenética propriamente dita. Durante o resto da vida, sabendo o que influencia os biomarcadores do envelhecimento, podemos atenuar a curva do envelhecimento e proteger o corpo, diminuindo o risco de muitas doenças como o cancro e a doença de Alzheimer. 

A reversão em si é algo que será possível brevemente através de intervenções sobre a informação genética. Acho que até 2045 será possível tornar o envelhecimento uma doença do passado. Mas, mesmo assim, todo o conteúdo do livro continuará a ser relevante, porque ele ensina a proteger a saúde desde os biomarcadores do envelhecimento.

Coloca os biomarcadores do envelhecimento como nucleares ao livro. Quantos destes são hoje realmente utilizáveis em prática clínica e não apenas em contexto de investigação?

Temos 12 biomarcadores, dos quais metade podem ser avaliados diretamente e de forma relativamente acessível. Aliás, é isso que fazemos nas clínicas dos Hotéis Longevity de Alvor e Cascais. Por exemplo, através de um teste epigenético, conseguimos estimar a nossa idade biológica, que é um excelente indicador do ritmo a que o organismo está a envelhecer. 

Outros biomarcadores ainda são mais difíceis de medir diretamente em clínica, mas podem ser avaliados de forma indireta. Um bom exemplo é a função mitocondrial: ao avaliarmos a capacidade cardiorrespiratória, nomeadamente o VO₂max, conseguimos inferir de forma indireta a eficiência mitocondrial, sendo a disfunção mitocondrial um dos biomarcadores centrais do envelhecimento.

Através de um teste epigenético, conseguimos estimar a nossa idade biológica, que é um excelente indicador do ritmo a que o organismo está a envelhecer. 

Ao longo do livro fala em desmontar “mitos e preconceitos”. Houve alguma ideia amplamente aceite que, ao investigá-la, o tenha surpreendido particularmente?

Há vários exemplos que refiro ao longo do livro. Por exemplo, embora muitas vezes se diga que comer carne ou consumir álcool é sempre prejudicial, a realidade parece ser mais complexa. Em várias regiões do mundo estudadas pela elevada percentagem de centenários, as pessoas consomem carne, frequentemente porco, e também vinho, cerveja ou aguardente. O que parece fazer a diferença é, sobretudo, a quantidade, a frequência e o contexto global do estilo de vida, incluindo fatores como a atividade física regular, a qualidade do sono, a gestão do stresse e a ligação social.

Prevenir, Curar, Viver — O plano que protege a sua saúde ao longo da vida Créditos: Contraponto

O livro sugere que pequenas mudanças no dia a dia podem alterar o nosso futuro biológico. Pode dar-nos alguns exemplos dos impactos significativos e duradouros no envelhecimento humano?

Ajustar o básico é o primeiro passo para uma vida longa e saudável. Tomar nutracêuticos é interessante, mas como estratégia complementar. Ter uma rotina e qualidade de sono é crucial para a regeneração diária. Sem ela, desenvolvemos problemas cardiovasculares, cognitivos ou engordamos. Fazer 450 minutos de exercício físico por semana é o medicamento antiaging mais poderoso do mundo. 

Evitar estar em stresse permanente, pois o excesso de cortisol acelera o relógio epigenético. Abrace ou passe momentos com quem lhe faz bem, a oxitocina torna o mundo menos hostil e ajuda a preservar os telómeros. Não comer em excesso ou fazer jejum intermitente é uma estratégia que abranda o envelhecimento em múltiplas espécies estudadas. E procurar estar em contacto com a natureza, descalço ou não, mas esteja em contacto, nem que seja na praia ou parque. Não só controla o cortisol como melhora a saúde mitocondrial e a produção de vitamina D.

Que papel atribui às relações sociais e ao contexto emocional na longevidade, um aspeto que nem sempre é tratado de forma central na medicina?

É verdade, nem na medicina nem na sociedade damos o devido valor. Somos seres sociais e, como tal, somos dependentes da oxitocina. Ela controla o stresse, promove a empatia, a ética e o otimismo. Hoje sabemos que existe uma relação entre o stresse crónico, a ligação social e o tamanho dos telómeros, um biomarcador do envelhecimento. E produzimos oxitocina quando ajudamos o próximo, quando abraçamos ou acariciamos alguém, nem que seja um animal.

Vemos que, em comunidades com elevada prevalência de centenários, as pessoas vivem integradas nas famílias, cuidam dos netos ou bisnetos, fazem pequenas tarefas, sentem-se úteis e parte de algo maior.

Por outro lado, vemos que o stresse constante, sem pausas, leva a uma aceleração do envelhecimento, à exaustão de vários órgãos e ao surgimento de problemas de saúde. Por vezes, o stresse vem de nos sentirmos sozinhos ou a viver uma vida sem propósito. Tudo isto não só mina a nossa saúde e longevidade como a coesão e paz social.

Não comer em excesso ou fazer jejum intermitente é uma estratégia que abranda o envelhecimento em múltiplas espécies estudadas.

Defende uma abordagem que combina medicina convencional, nutrição e nutracêuticos. Onde traça o limite entre integração legítima e práticas sem validação científica robusta?

Sim, não faz sentido ficarmos reféns apenas do que já tem validação científica robusta, porque a ciência está em constante evolução e muitas intervenções promissoras ainda estão em fase emergente. Dito isto, devemos dar primazia às intervenções mais sólidas cientificamente, mas não em exclusivo. Até porque, na própria medicina, nem todas as intervenções dispõem do mesmo nível de evidência. O que nunca devemos fazer é substituir uma intervenção comprovadamente eficaz por outra sem evidência. Mas há muitas intervenções emergentes que podemos usar como complementares. Vemos, por exemplo, o caso do jejum intermitente, que, ano após ano, tem cada vez mais evidência, ou o uso da fotobiomodulação na estimulação mitocondrial ou de determinados nutracêuticos para apoiar alguns dos biomarcadores.

A ideia de que “uma vida longa e saudável está ao alcance de todos” ignora desigualdades sociais. Este modelo de longevidade é realmente universal?

Se for a zonas com elevada prevalência de centenários, vai observar que são comunidades simples e pobres. Não vivem em mansões nem têm um personal trainer. Sim, hoje podemos usar técnicas emergentes caras, fazer extensas avaliações de saúde dispendiosas e tomar muitos nutracêuticos. Mas viver bem e melhor não implica ser rico. Ter uma vida a um ritmo calmo, praticar exercício físico regularmente, como caminhar e jardinagem, dormir bem, comer mais verduras e menos ultraprocessados, rodeados da família e expormo-nos menos a pessoas tóxicas ou noticiários violentos, não custa mais dinheiro.

Se for a zonas com elevada prevalência de centenários, vai observar que são comunidades simples e pobres. Não vivem em mansões nem têm um personal trainer.

O livro insiste na ideia de “dar mais vida aos anos”. Numa sociedade obcecada com longevidade, como evitar que esta busca se transforme numa nova forma de ansiedade e controlo sobre o corpo?

A ansiedade faz mal à longevidade. É melhor evitá-la. Eu acredito que, quando nos comprometemos com a longevidade, mudamos a forma como pensamos e vivemos a todos os níveis. Sim, pode haver, e existem, indivíduos que ficam obcecados, mas isso acontece em todas as áreas. Mas eu acredito que passamos a valorizar mais a vida, as relações, a nossa saúde e a promover uma sociedade melhor.

Se tivesse de resumir tudo o que defende no livro numa ideia simples que ficasse com o leitor, qual seria o princípio essencial para viver mais, e melhor, no dia a dia?

Faz o básico de forma consistente, mas sem extremismos. E lembra-te sempre que tiveres de tomar decisões: os anos que realmente tens são os que te faltam viver. 

Publicado originalmente em https://sapo.pt/artigo/ate-2045-sera-possivel-tornar-o-envelhecimento-uma-doenca-do-passado-andre-dourado-especialista-em-medicina-integrativa

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