| Nolt: a geração 60+ que rejeita rótulos, desafia o etarismo e reinventa a longevidade |
Ativos, curiosos e protagonistas da própria história, eles mostram que a maturidade não é fim de ciclo, mas expansão de vida
A médica Rosângela Bello, de 73 anos, recebeu as jovens amigas da filha em casa, no Rio de Janeiro, para uma confraternização de fim de ano. Nas fotos, dificilmente é possível identificar a diferença geracional de quase 30 anos. A carioca, que nem pensa em interromper sua ativa vida laboral e intelectual, está dentro da denominação Nolt, sigla de New Older Living Trend, traduzido comumente como “nova forma de viver a maturidade”. Esse conceito inclui pessoas com idade a partir de 60 anos, com atitudes proativas, energia, curiosidade para novos desafios e comprometimento com a saúde física, mental, intelectual e sexual.
Atenção: aqui não se fala sobre envelhecimento e, sim, sobre continuidade de vida sem marcador cronológico. Essa geração reconfigura expectativas sobre trabalho, consumo, relações e também atualiza o conceito de identidade. A nomenclatura surgiu a partir de mudanças comportamentais que apontaram as expressões “terceira idade” ou “melhor idade” como rótulos eufemísticos e limitantes para esse grupo de pessoas.
Rosângela destaca a importância da genética, mas inclui também a influência do ambiente e dos hábitos saudáveis. Sua receita é simples: exerce a medicina com estudos e aprendizados contínuos, pratica exercícios físicos e mantém uma boa alimentação. “Comecei a comer arroz integral quando isso nem era moda”, ressalta. A frase mostra que, para envelhecer bem, é necessário começar cedo a se cuidar. Ela não abre mão da leitura, da dança e do convívio com amigos e netos. “São quatro. Eles me rejuvenescem muito. Preciso ter energia para pegá-los no colo”, brinca.
O envelhecimento populacional é uma das transformações demográficas mais profundas do século XXI. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 2050 o mundo terá cerca de 2 bilhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a uma em cada seis no planeta. Em Portugal, um dos países com a população mais envelhecida da Europa, 24,3% já ultrapassaram os 65 anos, de acordo com dados de 2024 do Instituto Nacional de Estatística (INE). O país tem quase o dobro da estatística brasileira, que registra 10,9% de pessoas na mesma faixa etária — o maior índice da história, segundo o Censo de 2022.
Mas envelhecer não é uma experiência homogênea. Renda, gênero, acesso à saúde e contexto social influenciam diretamente como — e quão bem — se envelhece. Em Portugal, cerca de 15% dos idosos relatam dificuldades para comprar todos os medicamentos de que precisam. Sem esse acesso, muitos não conseguem alcançar maior longevidade, o que coloca a pobreza como fator de morte precoce. No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 mostrou que o sedentarismo permanece elevado entre pessoas mais velhas, associado ao aumento de doenças crônicas. Nesse caso, hábitos comportamentais e sociais também encurtam a vida.
Para Ana João Sepúlveda, CEO da 40+ Lab e presidente da Age Friendly Portugal, o desafio vai além dos números. Essa transformação, afirma, exige uma nova literatura sobre o tema. “O que importa cada vez menos é a idade cronológica, e sim como eu me sinto, qual é a minha idade biológica e qual é a minha capacidade de investir em uma vida mais longa com qualidade.” Segundo Ana, essa mudança exige uma nova forma de compreender a longevidade, inclusive do ponto de vista econômico. “Na nossa análise mais ampla, criamos o conceito de longevity-driven economy — a economia impulsionada pela longevidade — que se tornou uma categoria de consumo e uma nova área da indústria, dos serviços e dos produtos.”
| Ana João Sepúlveda. Crédito: Arquivo pessoal |
Apesar disso, o mercado de trabalho ainda opera com premissas ultrapassadas. “Existe a ideia de que pessoas com mais de 50 anos são desatualizadas, resistentes à tecnologia e caras para as empresas”, diz Ana. Um pensamento equivocado. “O paradoxo é que hoje sabemos que o pico de produtividade acontece justamente entre os 50 e os 60 anos. Estamos vivendo uma segunda vida ativa. Não faz sentido planejar a vida como as gerações anteriores, naquele modelo linear de estudar, trabalhar, aposentar-se e esperar a morte chegar.”
É nesse contexto que se insere a trajetória da influenciadora brasileira Ivy Mena, eleita pela edição sul-africana da revista Playboy como a criadora de conteúdo 60+ mais bonita do planeta. Formada em Direito, Ivy construiu uma carreira tradicional antes de mudar de rota e passar a produzir conteúdo adulto, área que se tornou sua principal atividade, fonte de renda e responsável por lhe dar visibilidade e reconhecimento internacional. Para ela, a decisão não representou uma ruptura, mas uma continuidade de vida.
Em Santa Catarina, onde mora, Ivy segue incorporando desafios à própria rotina e, recentemente, decidiu se matricular em um curso de salva-vidas de verão, retomando um desejo antigo. “Sempre gostei de aprender coisas novas. Para mim, viver bem tem a ver com continuar curiosa, aberta, disponível”, afirma. “Já tive uma carreira considerada estável e descobri que posso viver outras versões de mim. Criar conteúdo me deu liberdade, mas também responsabilidade sobre quem escolho ser.”
Esse movimento também se expressa nas redes sociais, onde cresce a presença de influenciadores acima dos 60 anos que desafiam expectativas sobre aparência, carreira e comportamento. A modelo e ativista social Luiza Brunet, de 63 anos, a atriz e escritora Bruna Lombardi, de 73, e o gerontólogo e influenciador Ney Messias Júnior, conhecido como Seu Neyzinho, de 64, acumulam milhares de seguidores ao compartilhar rotinas intelectualmente ativas, novos projetos profissionais e um olhar autoral sobre o tempo. Longe de estereótipos, eles expõem uma maturidade em movimento, conectada ao presente.
“A maturidade da mulher, hoje, é com sexualidade, beleza, autonomia financeira e emocional”, afirma Luiza. Muito questionada sobre sua eterna jovialidade, Bruna — ainda considerada uma das mulheres mais bonitas do Brasil — responde: “Não existe fórmula secreta. A beleza está ligada ao autoconhecimento, à maneira como você está no mundo e ao seu entusiasmo. Isso não tem idade.” A atriz escreve livros, envolve-se em campanhas contra o machismo e a proteção dos animais, ministra cursos on-line e participa de programas de TV.
Seu Neyzinho usa as redes para provocar debates sobre a “nova maturidade” e resume: “O etarismo permeia todos os outros preconceitos.”
Fora das redes, Benedito Silva, de 70 anos, que foi técnico em radiologia e enfrentou plantões noturnos por décadas, hoje escolhe tudo em sua vida com mais consciência. Acorda às 3h30, prepara um shake com frutas e suplementos e vai para a academia às 6h para treinar. Solteiro, mantém uma rotina social ativa, assim como planos de viagem. “Vivemos em um mundo melhor graças aos avanços da medicina e à percepção de que a vida é boa em todas as idades.”
A ideia é seguir fazendo, experimentando e agindo de forma integrada nos aspectos físico, intelectual e emocional. Essa nova geração mostra que envelhecer é ocupar o palco de forma autoral — e que a “virada de mesa” é definitiva. A médica Joana Costa, diretora clínica da B-Life, em Cascais, e especialista em longevidade, explica: “A qualidade das relações humanas, o descanso e o sentido que se atribui à vida são determinantes.” Segundo ela, evidências científicas mostram que sono adequado, pausas e momentos de ócio são fatores protetores do processo de envelhecimento. À medida que o mundo envelhece, a figura do “novo idoso” deixa de ser exceção e passa a ser referência.
Longevidade em números
- Segundo a OMS, até 2050 o mundo terá cerca de 2 bilhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a uma em cada seis.
- Pesquisas da Universidade Northwestern mostram que idosos com vida social ativa apresentam menor declínio cognitivo. Já o isolamento social aumenta o risco de morte prematura em até 29%, segundo dados do governo dos Estados Unidos.
- No Brasil, a expectativa de vida passou de 45 anos, em 1940, para mais de 76 anos atualmente (IBGE).
- Segundo o Censo 2022, 15,6% dos brasileiros têm 60 anos ou mais, um crescimento de 56% em relação a 2010.
- Em Portugal, 24,3% da população já ultrapassou os 65 anos (INE, 2024).
- Cerca de 15% dos idosos portugueses não conseguem comprar todos os medicamentos de que precisam.
- No Brasil, o sedentarismo entre pessoas mais velhas está associado ao aumento de doenças crônicas, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019.
Publicado originalmente em https://sapo.pt/artigo/nolt-a-geracao-60-que-rejeita-rotulos-desafia-o-etarismo-e-reinventa-a-longevidade-69d22519a4c5ea1ec5ee0c68
Comentários
Postar um comentário