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Por que a volta da magreza extrema é ainda mais perigosa para mulheres após os 50

 

Enquanto celebramos a potência da maturidade feminina e aplaudimos a presença cada vez mais frequente (e de destaque) de mulheres maduras em ambientes antes dominados pela juventude, começa a surgir uma nova discussão: a magreza extrema virou o novo Graal da longevidade? Exibir costelas aparentes, clavículas salientes e braços finíssimos é o novo símbolo de status de mulheres 50, 60, 70+?

“A estética ultramagra voltou ao centro da cultura visual contemporânea, mas agora sob uma nova roupagem”, diz a endocrinologista Tassiane Alvarenga, certificada em menopausa pela Menopause Society. “Hoje, essa transformação corporal acontece em paralelo ao avanço das terapias metabólicas, ao crescimento da medicina da longevidade e à intensa medicalização do corpo feminino.” Outra diferença é que essa estética magérrima aparece em mulheres que atravessaram os 50 anos, muitas delas já na menopausa, uma fase em que o organismo feminino passa justamente a exigir mais reserva muscular, óssea e metabólica — e não menos.

E é aqui que mora um paradoxo perigoso, como explica a dra. Tassiane: “Ao mesmo tempo em que a sociedade atual estimula o discurso do bem-estar, continua premiando sinais de restrição corporal extrema.” O problema é que o corpo da mulher madura não responde à magreza da mesma forma que aos 20 anos. A partir da menopausa, a queda do estrogênio altera profundamente a composição corporal: há redução progressiva de massa muscular, perda óssea, redistribuição de gordura e mudanças metabólicas importantes. Emagrecer rápido demais, ou permanecer assim sem cuidados, nessa etapa, pode se tornar um fator de fragilidade fisiológica, comprometendo a longevidade.

“Envelhecimento saudável não significa apenas pesar menos”, alerta o ginecologista Nélio Veiga Junior, pós-doutorando em menopausa com foco em saúde hormonal e qualidade de vida da mulher no climatério. “Tem a ver com preservar músculos, ossos, força, equilíbrio, cognição, sono, autonomia e saúde cardiovascular.” Segundo ele, muitas vezes a magreza excessiva esconde justamente o oposto do que se imagina como vitalidade: sarcopenia, desnutrição proteica, baixa densidade óssea e perda de reserva funcional.

Não por acaso, médicos vêm observando com atenção corpos extremamente magros em mulheres acima dos 50 anos. “Omoplatas proeminentes, clavículas excessivamente marcadas e perda importante de volume muscular podem ser interpretadas como sinais de fragilidade metabólica e perda de reserva fisiológica”, explica Tassiane. O oposto de saúde.

Essa discussão tem se tornado ainda mais relevante porque os medicamentos para emagrecimento que revolucionaram o tratamento da obesidade passaram a ocupar espaço central nas conversas sobre padrões estéticos. Emagrecer muito (e muito rápido) passou a ser algo possível de se comprar em farmácias. Para os especialistas, o problema, entretanto, não está nos avanços terapêuticos, considerados importantes e transformadores, mas na forma como isso frequentemente escorrega da saúde para a validação visual.

“O objetivo do tratamento da obesidade nunca deveria ser fragilidade corporal”, afirma Tassiane. “O foco da medicina moderna precisa ser composição corporal, preservação muscular, funcionalidade, saúde cardiovascular e qualidade de vida ao longo do envelhecimento.” Isso importa especialmente para mulheres maduras, porque o músculo deixa de ser simplesmente um valor estético e assume o importante papel de ativo biológico do envelhecimento. Ele protege ossos, ajuda no metabolismo da glicose, reduz risco de quedas, preserva autonomia e participa até da imunidade.

Essa obsessão pelo corpo ultramagro também toca em outro ponto: a relação emocional das mulheres mais velhas com o próprio corpo. Durante muito tempo, imaginou-se que inseguranças corporais desapareceriam com a idade. Hoje, estudos mostram um cenário diferente. “Assim como a puberdade representa um momento vulnerável para transtornos alimentares na adolescência, a transição menopausal representa isso para muitas mulheres na meia-idade”, diz o dr. Nélio. Ele cita pesquisas recentes que associam insatisfação corporal após os 50 anos a pior qualidade de vida física, emocional e social — independentemente do peso.

E, claro, as redes sociais têm ampliado essa distorção. Rostos sem marcas, braços sem flacidez, cinturas mínimas seguem sendo celebrados visualmente, mesmo em idades nas quais o organismo já pede outro tipo de cuidado. “Mulheres acima dos 50 anos vivem hoje uma pressão inédita para envelhecer sem aparentar envelhecimento”, observa Tassiane. E, à essa pressão, juntou-se o novo desejo estético da maturidade: corpo magro, muito magro.

Por isso, especialistas insistem em explicar que a saúde não pode ser medida apenas pela balança. “O importante é entender o que esse peso representa”, resume o dr. Nélio. “O quanto existe ali de músculo, osso, gordura visceral e reserva funcional.” O foco, segundo os médicos, deve estar em permanecer forte o suficiente para continuar vivendo plenamente dentro do próprio corpo. A magreza sozinha não garante isso.

Publicado originalmente em https://vogue.globo.com/sua-idade/noticia/2026/05/por-que-a-volta-da-magreza-extrema-e-ainda-mais-perigosa-para-mulheres-apos-os-50.ghtml

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