Pular para o conteúdo principal

A nova busca dos brasileiros é envelhecer melhor

Durante anos, o mercado de saúde e estética vendeu a juventude como principal objetivo. Rugas, flacidez e dores eram tratadas como inimigos inevitáveis do tempo. Agora, clínicas, consultórios e farmácias observam uma mudança importante: mais do que parecer jovens, os brasileiros querem envelhecer melhor.

A mudança acompanha um fenômeno global. Segundo o Global Wellness Institute, a "economia do bem-estar" movimentou US$ 6,3 trilhões em 2023, impulsionada por medicina preventiva, saúde mental, suplementação, longevidade e atividade física. O mercado deve ultrapassar US$ 9 trilhões até 2028.

No Brasil, o movimento cresce junto ao envelhecimento da população. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o número de brasileiros acima dos 60 anos deve dobrar até 2050. Hoje, o país já possui mais de 33 milhões de idosos. Mas, diferentemente das gerações anteriores, esse público quer continuar ativo, produtivo, independente e com qualidade de vida.

"Há alguns anos, a procura nas farmácias de manipulação se concentrava em emagrecimento e estética. Hoje vemos um crescimento muito forte por fórmulas para sono, disposição, foco, controle do estresse, performance cognitiva e envelhecimento saudável", afirma Fabíola Faleiros, farmacêutica e sócia das farmácias de manipulação La Pharma e Unna Pharma. O consumidor passou a enxergar a saúde de forma integrada e preventiva. "As pessoas entendem mais sobre ativos e querem soluções individualizadas para sua rotina, idade e objetivos", explica.

A preocupação com longevidade também mudou o perfil dos pacientes da cirurgia plástica. O Brasil segue como o segundo país que mais realiza procedimentos estéticos no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo levantamento da ISAPS (International Society of Aesthetic Plastic Surgery). Mas o desejo de transformação radical começa a perder espaço para resultados mais naturais.

"Hoje o paciente não quer mais parecer outra pessoa. Existe uma busca muito maior por naturalidade, aparência saudável e envelhecimento equilibrado", acentua Pamela Massuia, cirurgiã plástica.

É o caso de uma empresária de 52 anos que buscou atendimento após notar que o cansaço, a flacidez facial e a baixa autoestima afetavam sua vida profissional e social. Após abordagem integrada envolvendo cirurgia, melhora do sono, atividade física e acompanhamento multidisciplinar, ela relatou melhora estética, emocional e na disposição (detalhes foram alterados para preservar a identidade).

A mudança atingiu a harmonização facial. Após anos de procedimentos exagerados e rostos padronizados, especialistas observam o recuo dos excessos. "A harmonização exagerada perdeu espaço. O paciente entende que rejuvenescimento não significa excesso de volume. Há preocupação com o equilíbrio facial, qualidade da pele e naturalidade", explica Ana Carolina Martin, biomédica especialista em harmonização orofacial. Dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) mostram que os procedimentos minimamente invasivos crescem no país, especialmente entre pacientes acima dos 40 anos que buscam prevenção sem mudanças radicais.

A longevidade moderna vai além da estética; foca na qualidade de vida e no controle da dor. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 30% da população mundial convive com dor crônica, condição que impacta o sono, a produtividade e a mobilidade. Para Ricardo Graciano, neurocirurgião especialista em dor e medicina regenerativa, o envelhecimento trouxe o desafio de preservar a autonomia.

"As pessoas vivem mais e não querem limitações. O paciente de hoje quer continuar trabalhando, viajando e praticando esporte aos 60 ou 70 anos", assinala. Houve aumento na procura por tratamentos minimamente invasivos e abordagens regenerativas voltadas à melhora funcional. "Conseguimos trabalhar prevenção, controle inflamatório e recuperação funcional de forma estratégica", explica.

A mesma percepção aparece na fisioterapia. Para Fabi Pinelli, fisioterapeuta especializada em dor, o paciente busca funcionalidade: "Muitos chegam após anos convivendo com dores que afetam o sono, o humor e o bem-estar. Existe uma preocupação maior em recuperar o movimento e a autonomia".

Na ortopedia, o avanço da longevidade mudou o perfil dos atendimentos. O crescimento da prática esportiva entre adultos acima dos 40 anos aumentou a busca por preservação da mobilidade. Dados da plataforma Strava mostram crescimento consistente de corrida, beach tennis e esportes de resistência entre brasileiros acima dos 45 anos.

"O desafio atual não é apenas tratar lesões. É permitir que o paciente continue ativo por mais tempo e com segurança", frisa Thales Rama, ortopedista. Dores articulares e desgaste precoce aparecem agora em adultos ativos que querem manter alta performance física ao longo do envelhecimento.

A busca por longevidade chegou também à fonoaudiologia. Segundo Andréa Paz, fonoaudióloga, há uma preocupação crescente com cognição, audição e comunicação. "As pessoas perceberam que envelhecer bem é conseguir se comunicar bem, ouvir todos os sons, manter a independência, a cognição preservada e a participação social", pontua.

Esse movimento resgata práticas ancestrais de equilíbrio físico e emocional. Para Ronaldo Caggisi, terapeuta e especialista em Cura Taquiônica®, o interesse por bem-estar integral mostra que o conceito de saúde se ampliou. "Muitas práticas que voltam a ganhar espaço já eram observadas em civilizações antigas, como o Egito, que valorizava a energia, o descanso e a conexão corpo e mente", observa. O wellness contemporâneo une tecnologia e ciência, mas reflete uma reconexão: "Busca-se vitalidade, equilíbrio emocional, qualidade do sono e redução do estresse", acrescenta.

Especialistas observam que a estética deixou de ser o objetivo final e passou a integrar um conceito amplo de saúde e funcionalidade. "O paciente quer viver mais e melhor. Isso envolve sono, mobilidade, saúde mental, disposição, autoestima, cognição e prevenção. A saúde deixou de ser fragmentada", resume Fabíola Faleiros.

Em um país que envelhece rapidamente, a nova obsessão dos brasileiros não é parecer dez anos mais jovem, mas chegar aos próximos dez anos com total autonomia, disposição e qualidade de vida.

Publicado originalmente em https://valor.globo.com/patrocinado/dino/noticia/2026/06/29/a-nova-busca-dos-brasileiros-e-envelhecer-melhor-1.ghtml

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Esqueça a ideia de que qualidade de vida está nas capitais: ranking oficial da ONU revela que dezenas de cidades do interior concentram os maiores índices de desenvolvimento humano municipal do Brasil e superam grandes centros em educação, renda e longevidade

Moradores conferem ranking da ONU que aponta cidades do interior entre as melhores em qualidade de vida no Brasil. Levantamento do PNUD, com base no Atlas do desenvolvimento humano, aponta municípios com IDHM muito alto e redefine o mapa da qualidade de vida no Brasil Os melhores indicadores de qualidade de vida do Brasil não estão concentrados apenas nas capitais. Segundo o  Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil , divulgado pelo  Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) ,  dezenas de municípios do interior registram  IDHM acima da média nacional . O levantamento foi elaborado em parceria com o  Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)  e a  Fundação João Pinheiro , com dados consolidados oficialmente. Software para finanças A pesquisa avaliou todos os municípios brasileiros e listou as  50 cidades com maior Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) . Como funciona o IDH municipal O  IDHM  é uma adaptaç...

Com que dieta eu vou? Estudo revela as cinco capazes de ampliar a longevidade

Pesquisa robusta, com mais de 100 mil pessoas, identifica associação entre maior expectativa de vida e cinco planos alimentares Dieta mediterrânea: um dos cardápios avaliados em estudo (Foto: Louis Hansel/Unsplash/Divulgação)   Se a temporada da  dieta  é instaurada após o  Carnaval , um  novo estudo  pode ajudar a decidir a melhor opção a seguir para ganhar saúde e ampliar a  longevidade . Segundo uma análise de dados da população britânica, cinco planos alimentares se consagraram na  redução do risco de mortalidade precoce  e no  aumento da expectativa de vida. O  trabalho , conduzido por cientistas chineses e amparado no acompanhamento de mais de 100 mil pessoas registradas no UK Biobank (o banco de dados de saúde pública mantido pelo governo da Grã-Bretanha), evidenciou que os indivíduos com maior adesão aos cardápios bem avaliados apresentavam redução de 18 a 24% no risco de mortalidade por todas as causas no período contemplad...

Pesquisadores descobrem proteína que pode devolver força muscular perdida pela idadeUm novo mecanismo biológico pode transformar a saúde muscular dos idosos

Pesquisadores descobrem proteína que pode devolver força muscular perdida pela idade Um novo mecanismo biológico pode transformar a saúde muscular dos idosos Proteína ajuda a preservar força muscular na velhice. (Foto: Perfect Wave via Canva) Fala Ciência O envelhecimento costuma trazer uma queda constante da força, afetando equilíbrio, mobilidade e autonomia. Porém, novas evidências científicas indicam que esse processo pode ser mais maleável do que se imaginava.  Um estudo publicado na revista Communications Biology, conduzido por Alessandra Cecchini, identificou que a proteína tenascin-C desempenha um papel decisivo na preservação, recuperação e funcionalidade dos músculos em idades avançadas. A tenascin-C como peça essencial da regeneração muscular A tenascin-C atua diretamente na matriz extracelular, região que fornece sustentação e organização às células musculares. Essa proteína contribui para reparar microlesões, ativar mecanismos regenerativos e manter o tecido...