Pular para o conteúdo principal

Associados à atividade física, polifenóis mostram potencial contra sarcopenia

Revisão reúne evidências iniciais de que polifenóis poderiam modular genes e processos relacionados a força e massa muscular em idosos

Texto: Hugo Carcci*

Arte: Heloisa Falaschi**

Imagem mostra uma mulher e um homem idosos sorrindo enquanto seguram halteres durante a prática de exercícios físicos. Ao fundo, há uma parede de tijolos.
A prática regular de exercícios físicos, associada a uma alimentação rica em compostos bioativos, pode ajudar na preservação da força, da massa muscular e da autonomia durante o envelhecimento - Foto: Magnific

Polifenóis presentes em alimentos como café, chá verde, uvas, maçã, frutas vermelhas e cúrcuma são potenciais aliados para reduzir a perda muscular associada ao envelhecimento e preservar força, mobilidade e autonomia em idosos. A conclusão faz parte de uma revisão científica realizada por pesquisadores da USP em Ribeirão Preto que reuniu dados de estudos experimentais sobre o papel desses compostos na prevenção da sarcopenia, condição caracterizada pela perda progressiva de massa muscular e desempenho físico. Apesar das boas perspectivas, os pesquisadores afirmam que ainda é cedo para pensar na inclusão na dieta dos alimentos com polifenóis com foco específico na questão muscular – a maioria dos estudos até agora foi realizada em roedores idosos, faltando estudos maiores e mais padronizados em humanos.

Ao comentar sobre a motivação do estudo, o pesquisador de pós-doutorado no Laboratório de Fisiologia do Exercício e Metabolismo (Lafem), da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP) da USP, Guilherme Rodrigues, explica que o avanço das pesquisas sobre a sarcopenia foi o principal ponto de partida para a revisão. “Diversos estudos já demonstravam que os polifenóis possuem propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias capazes de modular alterações biológicas complexas associadas ao envelhecimento.”

Segundo ele, os pesquisadores perceberam uma oportunidade de integrar gerociência (área que estuda o envelhecimento e formas de torná-lo mais saudável), saúde muscular e regulação epigenética (mecanismos que controlam a ativação e desativação dos genes sem alterar o DNA original) para entender como compostos presentes na alimentação poderiam contribuir para preservar a saúde muscular ao longo do tempo.

Na revisão, publicada na Frontiers in Aging, os autores exploraram estudos sugerindo que os polifenóis são capazes de modular atividades biológicas e celulares complexas como a expressão de genes relacionados à função muscular e ao envelhecimento, achados que estimulam mais pesquisas em busca de biomarcadores para nutrição e atividade física personalizadas.

Homem jovem, de cabelo curto escuro, bigode e cavanhaque, sorrindo para a câmera em frente a uma paisagem com água, árvores e prédios ao fundo.
Guilherme Rodrigues - Foto: Arquivo pessoal

Resveratrol, quercetina, EGCG e curcumina

O trabalho deu atenção especial a compostos como resveratrol, quercetina, galato de epigalocatequina (EGCG) e curcumina. Segundo o pós-doutorando, eles foram destacados “porque estão entre os polifenóis mais estudados em relação ao envelhecimento e à saúde muscular”. O pesquisador explica que o resveratrol é encontrado principalmente em uvas roxas, vinho tinto e algumas frutas vermelhas. A quercetina está presente em alimentos como maçã, cebola, uva e frutas vermelhas. “O EGCG é um dos principais compostos do chá verde, enquanto a curcumina é o composto bioativo da cúrcuma, também conhecida como açafrão-da-terra”, afirma.

De acordo com Rodrigues, o interesse nestes compostos também está ligado ao fato de muitos deles fazerem parte de padrões alimentares considerados saudáveis. “Os estudos sugerem que eles podem ajudar a combater processos ligados ao envelhecimento, como inflamação e estresse oxidativo.”

Na revisão, os autores analisaram evidências de estudos em células, animais e em pacientes humanos sobre a atuação desses compostos em processos relacionados à inflamação crônica, ao desgaste celular, à produção de energia das células, à regeneração muscular e às alterações epigenéticas associadas ao envelhecimento. 

Como os polifenóis atuam no músculo

Um dos pontos centrais do trabalho foi mostrar que os polifenóis não atuam apenas como antioxidantes. Eles também podem interferir em vias biológicas ligadas ao envelhecimento muscular, como a mTOR, a AMPK e a NF-κB.

A mTOR está relacionada à síntese de proteínas e ao crescimento muscular. A AMPK funciona como um sensor de energia da célula, regulando o metabolismo e a saúde das mitocôndrias (estruturas celulares produtoras de energia). Já a NF-κB está associada à inflamação crônica de baixo grau, processo comum no envelhecimento.

Segundo Rodrigues, “estudar essas três vias é crucial porque elas conectam inflamação, metabolismo, disfunção mitocondrial e perda de massa magra”. Para ele, essas vias ajudam a explicar como o músculo envelhece de forma integrada.

As evidências revisadas indicam que o resveratrol e o EGCG atuam principalmente na ativação da AMPK e da SIRT1 (proteína associada à regulação do metabolismo e ao envelhecimento celular). Já a quercetina e a curcumina demonstraram ação sobre processos inflamatórios. Segundo o pesquisador, esses compostos “demonstraram capacidade de bloquear diretamente a translocação do NF-κB, reduzindo a expressão de citocinas inflamatórias como TNF-alfa e IL-6”.

Potencial terapêutico dos polifenóis ainda carece de diretrizes nutricionais

Os resultados da revisão indicam que os polifenóis podem ser promissores na prevenção e no combate à sarcopenia. “Os estudos analisados mostraram efeitos associados à redução da inflamação, diminuição do estresse oxidativo e melhora da função mitocondrial, que são fatores ligados à sarcopenia”, informa o pesquisador.

Além disso, os resultados “sugerem que compostos presentes na dieta, especialmente os polifenóis, podem atuar como aliados na preservação da saúde muscular, principalmente quando associados à prática regular de exercício físico”, acrescenta, afirmando que estudos com humanos observaram melhoras na força, na velocidade da caminhada e na manutenção da massa, principalmente em intervenções com duração superior a 12 semanas.

Segundo Rodrigues, isso ocorre porque a prática de exercícios e os polifenóis atuam em mecanismos biológicos semelhantes. “Então, em vez de pensar apenas em suplementação ou apenas em exercício, a literatura começa a mostrar que a combinação das duas estratégias pode ser mais interessante para promover um envelhecimento muscular mais saudável.”

Apesar dos resultados, o pesquisador destaca que ainda não existe uma orientação nutricional fechada para o uso de polifenóis no tratamento da sarcopenia em humanos. “Até o momento, a literatura científica revisada mostra que ainda estamos em um estágio inicial para estabelecer uma orientação nutricional ou prescrição clínica fechada de polifenóis voltada especificamente para a sarcopenia em humanos”, afirma.

Rodrigues conta que a maior parte das evidências ainda vem de modelos experimentais com roedores idosos. Nesses estudos, a suplementação com polifenóis específicos conseguiu reverter a atrofia, preservar o tamanho das fibras musculares e melhorar a capacidade física dos animais. “O potencial terapêutico é gigante, mas ainda não existem protocolos de diretrizes nutricionais validados para a prática clínica diária.”

Entre os principais desafios estão a baixa biodisponibilidade dessas substâncias, ou seja, a dificuldade do organismo absorver e aproveitar esses compostos, e a falta de padronização sobre doses, do tempo de intervenção e do perfil dos indivíduos que mais poderiam se beneficiar.

Alimentação, exercício e epigenética

Infográfico mostra a relação entre polifenóis, vias metabólicas, epigenética e prevenção da sarcopenia
Mapa mental mostra como os polifenóis podem atuar na prevenção da sarcopenia, destacando compostos como resveratrol, EGCG, curcumina e quercetina, suas ações em vias metabólicas, mecanismos epigenéticos e possíveis efeitos na preservação da massa e da função muscular - Foto: Reprodução do artigo

Para Rodrigues, os resultados reforçam a importância de pensar a prevenção da sarcopenia de forma integrada, unindo alimentação, exercício físico e conhecimento sobre os mecanismos biológicos do envelhecimento. Nesse sentido, os polifenóis não seriam vistos como substitutos de hábitos saudáveis, mas como possíveis aliados dentro de uma estratégia mais ampla de cuidado com a saúde muscular.

Outro ponto importante da revisão foi mostrar que esses compostos também parecem atuar em mecanismos epigenéticos, influenciando a forma como determinados genes são ativados ou silenciados no músculo envelhecido. “O desenvolvimento da sarcopenia envolve genes e mecanismos epigenéticos específicos regulados pelo envelhecimento, os quais podem ser modulados por polifenóis”, explica Rodrigues.

Apesar dos avanços, ainda há limitações importantes. “Precisamos de estudos maiores e mais padronizados para definir quais compostos são mais eficazes, em quais doses e para quais perfis de indivíduos, tempo de intervenção e como fatores individuais, como microbiota intestinal e genética, influenciam a resposta a esses compostos”, afirma.

Para o pesquisador, os próximos estudos devem caminhar para abordagens mais personalizadas. “Hoje já existem evidências de que os polifenóis podem modular a expressão gênica e vias relacionadas ao envelhecimento muscular, mas ainda faltam estudos em humanos integrando biomarcadores epigenéticos, função muscular e exercício físico”, explica. “A tendência é que futuras pesquisas caminhem para abordagens mais personalizadas, integrando nutrição, atividade física e biologia do envelhecimento.”

Mais informações: guirodrigues@usp.br, com Guilherme Da Silva Rodrigues

*Estagiário sob supervisão de Rita Stella

**Estagiária sob orientação de Simone Gomes

Ouça a entrevista com Guilherme Rodrigues, que foi ao ar no Jornal da USP no Ar – Edição Regional, no áudio a seguir:

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Esqueça a ideia de que qualidade de vida está nas capitais: ranking oficial da ONU revela que dezenas de cidades do interior concentram os maiores índices de desenvolvimento humano municipal do Brasil e superam grandes centros em educação, renda e longevidade

Moradores conferem ranking da ONU que aponta cidades do interior entre as melhores em qualidade de vida no Brasil. Levantamento do PNUD, com base no Atlas do desenvolvimento humano, aponta municípios com IDHM muito alto e redefine o mapa da qualidade de vida no Brasil Os melhores indicadores de qualidade de vida do Brasil não estão concentrados apenas nas capitais. Segundo o  Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil , divulgado pelo  Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) ,  dezenas de municípios do interior registram  IDHM acima da média nacional . O levantamento foi elaborado em parceria com o  Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)  e a  Fundação João Pinheiro , com dados consolidados oficialmente. Software para finanças A pesquisa avaliou todos os municípios brasileiros e listou as  50 cidades com maior Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) . Como funciona o IDH municipal O  IDHM  é uma adaptaç...

Com que dieta eu vou? Estudo revela as cinco capazes de ampliar a longevidade

Pesquisa robusta, com mais de 100 mil pessoas, identifica associação entre maior expectativa de vida e cinco planos alimentares Dieta mediterrânea: um dos cardápios avaliados em estudo (Foto: Louis Hansel/Unsplash/Divulgação)   Se a temporada da  dieta  é instaurada após o  Carnaval , um  novo estudo  pode ajudar a decidir a melhor opção a seguir para ganhar saúde e ampliar a  longevidade . Segundo uma análise de dados da população britânica, cinco planos alimentares se consagraram na  redução do risco de mortalidade precoce  e no  aumento da expectativa de vida. O  trabalho , conduzido por cientistas chineses e amparado no acompanhamento de mais de 100 mil pessoas registradas no UK Biobank (o banco de dados de saúde pública mantido pelo governo da Grã-Bretanha), evidenciou que os indivíduos com maior adesão aos cardápios bem avaliados apresentavam redução de 18 a 24% no risco de mortalidade por todas as causas no período contemplad...

Pesquisadores descobrem proteína que pode devolver força muscular perdida pela idadeUm novo mecanismo biológico pode transformar a saúde muscular dos idosos

Pesquisadores descobrem proteína que pode devolver força muscular perdida pela idade Um novo mecanismo biológico pode transformar a saúde muscular dos idosos Proteína ajuda a preservar força muscular na velhice. (Foto: Perfect Wave via Canva) Fala Ciência O envelhecimento costuma trazer uma queda constante da força, afetando equilíbrio, mobilidade e autonomia. Porém, novas evidências científicas indicam que esse processo pode ser mais maleável do que se imaginava.  Um estudo publicado na revista Communications Biology, conduzido por Alessandra Cecchini, identificou que a proteína tenascin-C desempenha um papel decisivo na preservação, recuperação e funcionalidade dos músculos em idades avançadas. A tenascin-C como peça essencial da regeneração muscular A tenascin-C atua diretamente na matriz extracelular, região que fornece sustentação e organização às células musculares. Essa proteína contribui para reparar microlesões, ativar mecanismos regenerativos e manter o tecido...